Sente aí meu irmão É uma coisa rara de ver O ano é bom, muito bom Estou feliz podes crer
A história de Dinorah você encontra em: DINORACOMAGANOFIM: Muito Prazer! Dinoracomagánofim.



Dinorah

Dinorah

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Passeio Socrático

Passeando pela net, encontrei este texto, vale a pena conferir o texto de Frei Betto. Pensei citar apenas algumas parte, mas ele - o texto - é todinho maravilhoso. Você também pode acessar o site - http://www.freibetto.org/ - está recheado de sabedoria, aconselho um passeio por lá.

PASSEIO SOCRÁTICO - Frei Betto

"Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”
A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!
Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…
A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”
/ http://www.freibetto.org/

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Maracangalha



Eu vou prá Maracangalha
Eu vou!
Eu vou de uniforme branco
Eu vou!
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou!
Eu vou convidar Anália
Eu vou!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só
!
Autor: Dorival Caymmi, gravada em 1956

terça-feira, 26 de outubro de 2010

I. A avó


Quando criança, a avó lhe dava banho, penteava o cabelo, fazendo uma onda com o pente, por fim, passava-lhe algumas gotas de “Água de Colônia 4711”.
Lembrou-se das mãos da avó.
- Vó, por que tuas mãos são cheias de pintinhas?
- É mão de velha. Mão de velha é assim, a pele enferruja, fica molenga, dá até para fazer cu de galinha.
Lembrou-se como gostava de fazer cu de galinha na mão da avó, de como era bom brincar com suas mãos. Tinha uma aliança que era de ouro com uma borda de platina. A avó lhe contou que era assim por que já estava casada há muito tempo com o avô, era como se tivessem casado duas vezes. Gostava de brincar com uma pulseira que ela usava. Uma argola grande com outras argolinhas menores que corriam sobre a grandona - cada argolinha representava um ano de casada. Todo ano, no aniversário de casamento, o avô mandava colocar mais uma argolinha.
A imagem da avó surgiu em sua imaginação. Uma mulher robusta, pele clara, olhos azuis. Seus vestidos, sempre do mesmo feitio - como ela dizia - tinham dois grandes bolsos, um deles guardava um providencial lenço - para limpar o nariz dos netos.
Sentia uma paz imensa quando lembrava da avó. Talvez a avó fosse serena mesmo, pelo menos foi isto que sempre imaginou. Descendia de colonos alemães. Fora educada em alemão. Quando casou-se, só falava alemão e o avô só o português. Os dois se chamavam de schatz – tesouro – em alemão.
Hoje, já tão velha quanto sua avó era na época, indagava-se – como é que lá naquele tampo, no meio de gente com tanta dificuldade de expressar sentimentos, os dois, depois de muito tempo de casados, ainda tinham o carinho – e se fosse por costume, tanto faz – de se chamarem de tesouro? Quem, dos filhos e netos, ainda chama o marido ou a mulher por um apelido carinhoso?
Analisava e concluía que a avó deveria ser muito tímida, mas também, muito carinhosa, afinal, o apelido era em sua língua – schatz!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

II. O avô


Baixinho, gordinho, de bombachas – no verão, eram cortadas transformando-se nas saias-calças mais esquisitas que se tem conhecimento. No inverno, um pesado poncho de lã de ovelha. Um boné que cobria a cabeça quase calva. Gostava muito do avô, beijava-o no rosto, mesmo que para isto tivesse que sentir sua barba espetando-lhe as bochechas.
Era escrivão, trabalhava no Fórum e, às vezes, levava-a para ajudá-lo. Ela lavava canetas tinteiro, arrumava gavetas, escrevia a máquina – que paciência ele deveria ter para aturar aquele menina xereta, perguntado, bisbilhotando tudo o que encontrasse.
Ela foi para escola aos cinco anos e quando foi passar as férias de inverno na casa do avô, já sabia ler. Ele, muito orgulhoso, pegou um jornal e pediu-lhe que lesse para um amigo.
- Cooo rrrre iiiiooo do pooo vo!
Fato tão relevante foi comemorado com pastéis de nata, feitos pela avó.
Também era historiador e jornalista. Sua mãe contava que fora metido a construir aviões – atualmente, o aeroporto da cidade tem o nome dele.
Gostava de festas – não esquece que foi ele que lhe ensinou a cantar a primeira marchinha de carnaval - Maracangalha. Gostava cerveja, de receber amigos, a casa estava sempre cheia. Contava anedotas e causos engraçados que ela adorava ouvir.

Qualquer assunto que surgisse, tirava as dúvidas no Rocha Pombo – se não estivesse ali, não existia!
Chamava a esposa de schatz - tesouro. No fundo, deveria ser romântico, naquele tempo, não era costume um homem chamar, publicamente, a mulher de tesouro...


“...O seu barba de farelo, não tem nada pra nos dar, tomara que nunca tenha, um cigarro pra fumar...” – cantou baixinho, como se ele estivesse lhe ouvindo.

Ele saberia interpretar a homenagem...

domingo, 24 de outubro de 2010

III. A cozinha


Lembrou-se da cozinha de sua avó. Aquela mesa enorme, com um banco azul, em forma de éle. Chegou a sentir o cheiro da lenha queimando no fogão, dos bifes sendo passado na chapa quente - Como será que minha avó conseguia aquele sabor? Nunca mais comi nada parecido - Pensou consigo mesma.
Ouviu a conversa das mulheres, sua mãe, tias, vizinhas discutindo sobre um novo ponto de tricô enquanto folhavam uma Burda. Até o barulhinho das agulhas de tricô, batendo as pontinhas uma na outra. ela teve a impressão de ouvir. Todas as manhãs elas se reuniam ao redor daquela mesa. Faziam tricô, costuravam, tomavam chimarrão. Conversavam sobre os maridos e filhos, trocavam receitas e diziam que ali não era lugar de criança – vão brincar lá fora que isto é assunto de gente grande – quantas vezes deve ter ouvido aquilo? Não tinha conta.
Enquanto o mulherio falava, a avó fritava bolinhos de arroz para oferecer a todas. Era quem menos falava, como se fosse invisível, estava ali só para aquecer mais água para o chimarrão ou alcançar uma tesoura para quem estivesse precisando. Uma figura que vivia nos bastidores, silenciosa, não metia o bedelho em nada, só quando alguém pedia sua ajuda é que se ouvia sua voz.
Em seguida, a imagem de um guarda louças surgiu. Um móvel azul, na parte de cima, as portas de vidro, mostravam prateleiras enfeitadas com barras de crochê e xícaras penduradas.
A avó também possuía louças, talheres e copos de festa. Eram bonitos. A louça era decorada com azul escuro e florzinhas cor de rosa com frisos dourados. As taças de champanhe eram aquelas de boca larga, não eram essas flute modernas. No faqueiro faltava uma colher de cafezinho, a avó sempre lhe dizia que devia ter sido jogada no lixo, por engano, pois nunca lhe descobrira o paradeiro. Também havia uma poncheira, com os canecos, eram de vidro cor de rosa, com o desenho de damas antigas e seus pares, tudo feito em relevo, e uma pesada concha de vidro. Aquele apetrecho era usado somente no primeiro dia do ano. Não sabia se era por causa do Reveillon ou por ser o aniversário de sua avó.
Naquele tempo, a cozinha era o coração da casa, lugar de junção de todas as visitas.

sábado, 23 de outubro de 2010

(continuação) - IV - Cotidiano


Na despensa, um bom estoque de conservas. Pêssego, figo, ameixa - da vermelha e da branca - goiaba, pêra, schmier e suco de uva. Também, os picles, cebolinha, pepino, couve flor, cenoura. Latas com biscoitos amanteigados e de polvilho.
Incrível, como mudam os conceitos – pensou - naquele tempo, servir uma mesa cheia de delicias, era uma demonstração de carinho. Pão sovado, cucas e doces não eram tipificados simplesmente: carboidratos – perigosa droga que causa dependência química. Naquele tempo, consumir carboidrato era prazer permitido. Não era pecado mortal!
Mas não eram só carboidratos que moviam aquele mundo.
O verdureiro passava todas as manhãs. Estacionava a carroça em frente a casa, ela corria para acompanhar a avó nas compras. Comprava-se de tudo, verduras e frutas da estação, ovos, manteiga, melado. Enquanto a avó escolhia, ela ficava na volta, tentando subir na carroça – Não pisa na roda que a carroça anda! – quanta vezes o verdureiro teria lhe advertido? Perdeu a conta. Ficava ali, ouvindo a conversa, em alemão, que avó e verdureiro entabulavam. Entre as compras, um cento de laranja - do céu e de umbigo - mais bergamotas e limas.
Depois do almoço, a avó sentava-se em uma cadeira, no pátio - para aproveitar o sol do inverno - com o balaio de laranjas ao lado. Retirava uma faquinha de um dos bolsos e, com os netos sentados a volta, descascava quantas laranjas bastassem para satisfazer a vontade e a gula da gurizada. Haviam duas opções de “corte” - com furinho ou com tampinha? Perguntava a avó.
No verão, eram as uvas. Colhidas da parreira e colocadas na geladeira, ficavam deliciosas, geladinhas. Também viravam um suco que só aquela avó sabia fazer.
Os sabores da infância são inesquecíveis, são temperados com “amor de vó” – especiaria que o tempo se encarrega de consumir.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

(continuação) - V - O cheiro


A casa exalava diversos cheiros, conforme o ambiente e o momento.
A cozinha, tanto poderia cheirar a bife feito na chapa como a baunilha, cravo, canela - dos papos de anjo e ambrosia.
Já o escritório do avô, cheirava a cigarro de palha e tinta de jornal.
O mais inesquecível, o que poderia ser denominado de “O cheiro da casa de minha avó”, encontrava-se no banheiro – uma mistura insólita de sabonete Phebo e fumo em corda, proveniente de grandes rolos do produto que ficavam armazenados em uma prateleira. Por mais estranho que possa parecer, ela gostava muito da mistura destes cheiros.
Sempre que sentisse este cheiro saberia que só poderia estar na casa da avó. Todos os outros cheiros poderiam ser sentidos em qualquer casa, mas esta mistura – só lá. Na casa da avó!