Sente aí meu irmão É uma coisa rara de ver O ano é bom, muito bom Estou feliz podes crer
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Dinorah

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Novidades.


Aqui pela Marambaia o que não faltam são novidades. Toda a manhã vejo aquelas duas figuras, Helga e Hilda passarem. Vão num passinho apressado, demonstrando urgência em chegar na praia onde bebem caipirinha, Underberg com coca zero e enchem o pandulho de tapioca. Enquanto isto o Adolfo come lingüiça, toma cerveja e dorme. – Aliás, pelo tanto de linguiça que a Hilda trouxe não sei como a cachorrada não veio correndo atrás dela.
A Hilda andou tendo uns ataques de saudades. Seu filho mais novo, mais uma vez, passou no milésimo vestibular, desta vez em primeiro lugar do curso que escolheu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Daí que a Hilda queria antecipar o retorno para casa, mas tanto a Helga insistiu que ela acabou ficando mais um pouco. Helga, já contou para toda a Marambaia que tem um sobrinho que é gênio – Puxou a mim! – afirma a gorducha sem o menor constrangimento.

Enquanto isto, a outra irmã da Helga, a Maria da Glória, está com a família – marido e filha - passando férias na casa de outro sobrinho no Rio de Janeiro. Nestas alturas do campeonato, a “Família Feliz” já deve ter tirado fotografia até dependurada no sovaco do Cristo Redentor! - cá para nós, que ninguém me ouça, a tal da Maria da Glória é toda metida à chique, mas já vi esta criatura tomar cada porre! É quando ela canta, ri, dá umas gargalhadas até se desfazer em prantos. É assim toda vez que bebe. A estas alturas, já deve estar lá pelos arcos da Lapa, sambando, achando que é passista da Mangueira e o marido o Carlinhos de Jesus. – agora lembrei que a Maria da Glória foi para o Rio sem tirar os pontos de uma cirurgia de que fez na barriga – será que assim mesmo irá sambar?
Fico pensando como estará o pobre sobrinho e a esposa - a Helga, sempre se exibe dizendo que o sobrinho e a esposa são doutorados, pós-doutorados, enfim, finíssimos! - convivendo com a hiper expansiva “família feliz”?
Aliás, esta familia da Helga deve se dar bem. Vivem uns na casa dos outros, andam sempre com as malas cheias de comidas para cima e para baixo. Nunca vi como gostam de uma junção!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sonho de um dia de verão de 1961.

Como é que alguém que só tem seis anos pode sonhar que de repente ficou velha? Que o tempo passou muito rápido? Foi o que aconteceu comigo ontem. Sonhei que havia se passado muito tempo, que eu era bem velhinha, enrugada, as pálpebras caídas, óculos na ponta do nariz, queixo duplo, papada, cabelos brancos, sentia umas dores esquisitas pelo corpo. Senti medo daquela velha. Ainda bem que meu irmão me acordou.
- Acorda, tu não queres ir à praia?
Nada como um banho de mar, castelos na areia, muitas brincadeiras - e a velhinha do sonho, que fim terá levado? – tomo banho de mar com meu pai e meus irmãos, minha mãe nos observa feliz, sorrindo, lá da praia.


...e a velhinha? a velhinha que se dane!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Natal - parte l


Todos os anos era a mesma coisa. Nesta época do ano a mãe se esmerava. Era chegado o momento de fazer as compotas de doce de figo, pêssego, ameixinha, “schmier” de uva, pêra, maçã, os picles de cebolinha, pepino, cenoura, os biscoitos de mel, amanteigados, polvilho e as famosas “bolachinhas de natal”. A mãe era incansável nos preparativos. A função começava por estes dias, final de novembro, um mês antes do Natal.
A largada era dada com as compotas. Era um tal de descascar frutas, ferver e esterilizar vidros – que fim terão levado os famosos “Vidros Rex” – Panelas enormes, cheias de água, com panos entre os vidros, para que não quebrassem, pareciam ferver o dia inteiro.
Nesta lambança as crianças eram corridas da cozinha – mas se a ordem tivesse sido cumprida, como é que se lembra de tudo isto?
Após mais ou menos uma semana, finalizado o trabalho - acredita que eram cerca de uns quarenta vidros de doces em calda, picles e “schmier” – expostos em prateleiras, provocavam uma visão bonita e deliciosa. A mãe orgulhosa de sua obra, os filhos, orgulhosos da mãe. Permaneceriam ali até que chegassem uma visita ou data especial. Deveriam durar até a próxima estação das frutas, quando tudo se repetiria.
Encerrada a etapa das compotas, iniciava-se a dos biscoitos e bolachas de Natal. Esta parte era a melhor, as crianças podiam ficar na cozinha, enfarinhando formas, cortando a massa com os moldes – sino, anjo, papai Noel, estrela, coração – também eram encarregadas de decorar os biscoitos, passando a cobertura de açúcar colorido. A casa era invadida pelo aroma de mel, cravo e canela – o cheiro típico do natal
As bolachas enchiam grandes latas de banha, que anteriormente haviam sido pintadas e decoradas com flores de “decalcomania” – isto ainda existe? Muito bem fechadas, eram escondidas em grandes armários com o intuito de não dar muita facilidade aos gulosos que as rondavam na espreita de um descuido qualquer da mãe. Cada especialidade levava um dia ou mais para ser feita, e assim, lá se ia a segunda semana.
Também era a única época do ano em que se fazia o delicioso capilé. Vários litros de vidro, tampados por uma rolha, continham a calda de açúcar e essência de framboesa – um xarope espesso que misturado com água se transformava em “gosto de natal”.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Natal - parte ll

A próxima etapa era a “faxina de fim de ano” – bom, nesta hora as crianças eram catadas a força, nenhuma queria participar. Limpar paredes, tirar o excesso de cera do assoalho, arrumar armários, lustrar alguma prataria. A mãe gostava de pintar as cadeiras e mesa da cozinha, fazia isto todos os anos, as crianças não gostavam da parte de lixar, mas adoravam um pincel e uma tinta!
Enfim, chegava a “semana do Natal”, na qual as crianças tinham grande participação. Ajudavam a pintar o papel do presépio – era uma mistura de goma com anilina espalhada num enorme papel kraft. Misturavam-se o vermelho, azul, amarelo – teria que ficar um aspecto de pedras. O papel serviria de fundo para se moldar uma gruta que abrigaria o Menino Jesus, Maria e José. Crianças providenciavam em caixas, pedras, barba de pau, tudo para decorar o presépio. Era uma semana de muitas atribulações.
No dia 24, pela manhã, chegava o pinheirinho que havia sido encomendado antecipadamente, o ideal é que fosse bem gordinho e alcançasse o teto. A árvore era colocada na sala de visitas, as crianças todas ficavam eufóricas com aquela função, era sinal de que realmente o dia havia chegado.
Árvore no devido lugar, admiravam o símbolo, comentavam, riam e eram convidadas a sair da sala cuja porta era chaveada. A partir deste momento, elas só voltariam a vê-la quando já fosse noite.
Naquele dia, o almoço era alguma coisa rápida, pois toda a atenção da mãe e da irmã mais velha era dirigida a ceia da noite. Preparar o sarrabulho, rechear e assar o peru, fazer a farofa, arroz de festa, saladas e sobremesas.
Depois do almoço começava um entra e sai da sala de visitas. O pai, a mãe e a irmã, passavam com muitas caixas onde estavam guardados os enfeites, o presépio, as guirlandas. Crianças não podiam ver nada.
...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Natal - parte lll


Aquele dia era totalmente atípico, crianças obedeciam ao primeiro chamado, tentavam não brigar entre si – coisa rara – e, sem que ninguém mandasse, às seis horas da tarde, estavam todos de banho tomado, cabelos penteados, arrumados com suas melhores roupas. Os maiores cuidavam dos menores ajudando a colocar a mesa da ceia, que naquela noite ficava muito bonita, decorada com a toalha de brocado branca, talheres, louças e copos de festa.
Assim que escurecia, o jantar era servido. Rezavam, como sempre faziam, antes das refeições. A comida de Natal era muito gostosa. Todos elogiavam, as crianças cuidavam para não deixar cair migalhas na toalha. Neste dia, o guaraná era liberado, podia-se beber o quanto bastasse para matar a sede, a gula. Mas não se poderia dizer que era uma refeição tranquila, os corações estavam aos pulos para saber como estaria enfeitado o pinheirinho, o presépio e quais seriam os presentes.
Acabada a saborosa e ansiosa refeição, as crianças maiores tomavam a frente para lavar a louça – os menores secavam. Só após é que receberiam os presentes – nunca se viu tanta criança com tanta vontade de lavar e secar louça, aquela tarefa se esgotava quase que em segundos.
Tudo limpo, tudo organizado, eis que chega o momento mais esperado do ano.

...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Natal - fim .



O pai e a mãe abrem a porta da sala e de imediato, o bando de crianças exclama um sonoro e prolongado “aaaah!” num misto de surpresa, encantamento e felicidade.
O pinheirinho está lindo! Decorado com o pisca-pisca e bolas coloridas. Lembra que uma das luzinhas era uma carinha de papai Noel e, em meio a tantos enfeites de natal, todos anos procuravam uma bola prateada, mais pesada do que as outras, diferente,aquela tinha uma história - o pai do pai comprara quando este ainda era um menino. Aquele era um enfeite especial - lembrava o avô que não chegaram a conhecer.
Após as exclamações de admiração, rezavam e cantavam “Noite Feliz”, uma das irmãs nunca conseguia cantar até o final, quando chegava na parte ...”pobrezinho nasceu em Belém...” caia em prantos, se emocionava e chorava, achava aquela canção linda, mas muito triste.
Recebiam os presentes. Bolas, bonecas, panelinhas, carrinhos, sapatos e roupas. Não se pode esquecer, que em determinados anos, junto com os presentes, algum menino recebia uma vara de marmelo em razão de comportamento não muito exemplar, servindo mais como brincadeira do que advertência. Falavam alto, riam felizes, brincavam com os presentes, exibindo-os uns aos outros.
Nesta noite eram servidos os doces, biscoitos e o capilé. O Natal tinha cheiro de pão de mel e gosto de capilé. ...e aquela gotinha de tristeza, de onde viria? seria por conta do "pobrezinho que nasceu em Belém?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A mentira.


Tinha uns sete anos morava em um lugarejo lá para as bandas do Botucaraí. Parecia mais um moleque do que uma menina. Andava descalça, e gostava de tomar banho em um arroio que corria nos fundos da casa.
Um dia, ao voltar da escola, notou certo alvoroço. A avó contou que havia se instalado na cidade um bando de ciganos. Ela nunca havia visto ciganos, só em livros de histórias e uma fantasia de carnaval.
- Vocês devem tomar cuidado com os ciganos. Ciganas roubam crianças, escondem-nas debaixo da saia, fogem. Nunca mais ninguém as encontra! – falou a avó.
Meu Deus! Que coisa séria! Como é que podiam fazer isto? Roubar criança pequena! Com cautela, foi até o portão. Será que alguma criança sairia à rua enquanto os ciganos estivessem na cidade? Foi quando avistou Solange, amiga de escola.
- Solange, sabia que tem ciganos na cidade?
- Sei. Até já vi duas ciganas passarem na frente de casa. Fiquei escondida atrás da janela. Elas usam vestidos bem compridos, rodados e coloridos. Também usam muitas pulseiras, colares, brincos.
Apesar do medo, o rosto se iluminou como quem está prestes a assistir um filme de aventura.
- Minha avó disse que eles roubam crianças.
- Minha mãe também. Disse pra tomar cuidado. Quando vir uma cigana, devo fugir.
- Solange, a gente podia ir ali pertinho, só espiar.
Não falaram mais nada. Com o coração aos pulos, foram até a esquina, de onde avistaram enormes barracas. Elas nunca tinham visto barracas tão grandes. Os olhos arregalaram-se e as duas, de mãos dadas, ficaram observando.
As lonas laterais estavam levantadas, conseguiam ver o movimento de mulheres e meninas, todas vestidas de uma maneira estranhamente linda. Tranças negras, saias floridas, muitos enfeites. As crianças brincavam correndo ao redor das barracas. Não se podia entender o que diziam, mas falavam alto, alguns cantavam.
Ficaram ali por um bom tempo, sentido o medo e o prazer de desvendar um outro mundo, totalmente desconhecido para elas. Comentavam baixinho:
- Será que estas crianças foram roubadas?
- Não, acho que não. As crianças estão alegres, estão brincando e parecem felizes.
O tempo passou sem que elas percebessem, até que começou a escurecer, correram de volta para casa. Chegou toda esbaforida, sua avó indagou, por onde havia andado?
Sem saber explicar por que, sentiu uma vontade de contar o que realmente gostaria que tivesse acontecido:
- Vó, a senhora nem sabe! Eu e a Solange estávamos brincando e uma ciganinha veio falar conosco. Ela nos convidou para ir até a barraca dela.
- Criatura, cigana rouba criança! – exclamou a avó assustada.
- Não rouba não, vó. Ela foi muito boazinha, até serviu um cafezinho.
- Eu não acredito! - falou a avó, oscilando entre o medo e a curiosidade.
- É sim, tomamos cafezinho e a barraca é muito linda – aí entrou uma descrição do palácio da Sherazade, princesa dos contos Mil e uma Noites que ela havia lido. Era a coisa mais próxima que sua mente encontrou para descrever o acampamento cigano – muitos tapetes coloridos, a gente senta no chão. A ciganinha nos mostrou os vestidos dela, são de um pano bem fininho e lisinho. Uns tem brilho, outros são transparentes. Muitas pulseiras, colares e brincos, todos de ouro. Ela guarda tudo em um baú enorme com dobradiças de ferro. A mãe da ciganinha convidou para ir lá amanhã.
Quanto mais a avó se emocionava, mais ela enfeitava a história, misturando ciganos com Mil e uma Noites, Sherazade, Ali Babá. Até que julgou estar exagerando e, no exato momento em que pensou em dizer para avó que era só uma brincadeira, chegaram duas senhoras, amigas de longos anos da avó, e ela, imediatamente, lhes contou a história narrada pela neta, cheia de euforia e humor.
Quando viu avó tão entusiasmada, feliz, contando, as gargalhadas, para as amigas e vizinhas, e que não acontecera, ficou com dó. Jamais desmentiu.
A menina cresceu, a avó envelheceu. Morreu velinha, quase cem anos, e sempre que queria contar algo engraçado dizia:
- Esta menina é medonha! Até já tomou café com ciganas. – E mais uma vez, contava a história.
Enquanto isto ela remoia uma culpa doída e pensava:
- Ah! Vó Picucha, perdoe-me pela mentira, tão contada e recontada, mas você sentia tanto prazer e alegria em contar o que não aconteceu que nunca tive coragem de desmentir.
Aquela era uma das histórias prediletas da avó seria muita maldade dizer que não havia acontecido. E depois, que feio seria ter uma avó tão velinha e tão mentirosa!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

I. A avó


Quando criança, a avó lhe dava banho, penteava o cabelo, fazendo uma onda com o pente, por fim, passava-lhe algumas gotas de “Água de Colônia 4711”.
Lembrou-se das mãos da avó.
- Vó, por que tuas mãos são cheias de pintinhas?
- É mão de velha. Mão de velha é assim, a pele enferruja, fica molenga, dá até para fazer cu de galinha.
Lembrou-se como gostava de fazer cu de galinha na mão da avó, de como era bom brincar com suas mãos. Tinha uma aliança que era de ouro com uma borda de platina. A avó lhe contou que era assim por que já estava casada há muito tempo com o avô, era como se tivessem casado duas vezes. Gostava de brincar com uma pulseira que ela usava. Uma argola grande com outras argolinhas menores que corriam sobre a grandona - cada argolinha representava um ano de casada. Todo ano, no aniversário de casamento, o avô mandava colocar mais uma argolinha.
A imagem da avó surgiu em sua imaginação. Uma mulher robusta, pele clara, olhos azuis. Seus vestidos, sempre do mesmo feitio - como ela dizia - tinham dois grandes bolsos, um deles guardava um providencial lenço - para limpar o nariz dos netos.
Sentia uma paz imensa quando lembrava da avó. Talvez a avó fosse serena mesmo, pelo menos foi isto que sempre imaginou. Descendia de colonos alemães. Fora educada em alemão. Quando casou-se, só falava alemão e o avô só o português. Os dois se chamavam de schatz – tesouro – em alemão.
Hoje, já tão velha quanto sua avó era na época, indagava-se – como é que lá naquele tampo, no meio de gente com tanta dificuldade de expressar sentimentos, os dois, depois de muito tempo de casados, ainda tinham o carinho – e se fosse por costume, tanto faz – de se chamarem de tesouro? Quem, dos filhos e netos, ainda chama o marido ou a mulher por um apelido carinhoso?
Analisava e concluía que a avó deveria ser muito tímida, mas também, muito carinhosa, afinal, o apelido era em sua língua – schatz!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

II. O avô


Baixinho, gordinho, de bombachas – no verão, eram cortadas transformando-se nas saias-calças mais esquisitas que se tem conhecimento. No inverno, um pesado poncho de lã de ovelha. Um boné que cobria a cabeça quase calva. Gostava muito do avô, beijava-o no rosto, mesmo que para isto tivesse que sentir sua barba espetando-lhe as bochechas.
Era escrivão, trabalhava no Fórum e, às vezes, levava-a para ajudá-lo. Ela lavava canetas tinteiro, arrumava gavetas, escrevia a máquina – que paciência ele deveria ter para aturar aquele menina xereta, perguntado, bisbilhotando tudo o que encontrasse.
Ela foi para escola aos cinco anos e quando foi passar as férias de inverno na casa do avô, já sabia ler. Ele, muito orgulhoso, pegou um jornal e pediu-lhe que lesse para um amigo.
- Cooo rrrre iiiiooo do pooo vo!
Fato tão relevante foi comemorado com pastéis de nata, feitos pela avó.
Também era historiador e jornalista. Sua mãe contava que fora metido a construir aviões – atualmente, o aeroporto da cidade tem o nome dele.
Gostava de festas – não esquece que foi ele que lhe ensinou a cantar a primeira marchinha de carnaval - Maracangalha. Gostava cerveja, de receber amigos, a casa estava sempre cheia. Contava anedotas e causos engraçados que ela adorava ouvir.

Qualquer assunto que surgisse, tirava as dúvidas no Rocha Pombo – se não estivesse ali, não existia!
Chamava a esposa de schatz - tesouro. No fundo, deveria ser romântico, naquele tempo, não era costume um homem chamar, publicamente, a mulher de tesouro...


“...O seu barba de farelo, não tem nada pra nos dar, tomara que nunca tenha, um cigarro pra fumar...” – cantou baixinho, como se ele estivesse lhe ouvindo.

Ele saberia interpretar a homenagem...

domingo, 24 de outubro de 2010

III. A cozinha


Lembrou-se da cozinha de sua avó. Aquela mesa enorme, com um banco azul, em forma de éle. Chegou a sentir o cheiro da lenha queimando no fogão, dos bifes sendo passado na chapa quente - Como será que minha avó conseguia aquele sabor? Nunca mais comi nada parecido - Pensou consigo mesma.
Ouviu a conversa das mulheres, sua mãe, tias, vizinhas discutindo sobre um novo ponto de tricô enquanto folhavam uma Burda. Até o barulhinho das agulhas de tricô, batendo as pontinhas uma na outra. ela teve a impressão de ouvir. Todas as manhãs elas se reuniam ao redor daquela mesa. Faziam tricô, costuravam, tomavam chimarrão. Conversavam sobre os maridos e filhos, trocavam receitas e diziam que ali não era lugar de criança – vão brincar lá fora que isto é assunto de gente grande – quantas vezes deve ter ouvido aquilo? Não tinha conta.
Enquanto o mulherio falava, a avó fritava bolinhos de arroz para oferecer a todas. Era quem menos falava, como se fosse invisível, estava ali só para aquecer mais água para o chimarrão ou alcançar uma tesoura para quem estivesse precisando. Uma figura que vivia nos bastidores, silenciosa, não metia o bedelho em nada, só quando alguém pedia sua ajuda é que se ouvia sua voz.
Em seguida, a imagem de um guarda louças surgiu. Um móvel azul, na parte de cima, as portas de vidro, mostravam prateleiras enfeitadas com barras de crochê e xícaras penduradas.
A avó também possuía louças, talheres e copos de festa. Eram bonitos. A louça era decorada com azul escuro e florzinhas cor de rosa com frisos dourados. As taças de champanhe eram aquelas de boca larga, não eram essas flute modernas. No faqueiro faltava uma colher de cafezinho, a avó sempre lhe dizia que devia ter sido jogada no lixo, por engano, pois nunca lhe descobrira o paradeiro. Também havia uma poncheira, com os canecos, eram de vidro cor de rosa, com o desenho de damas antigas e seus pares, tudo feito em relevo, e uma pesada concha de vidro. Aquele apetrecho era usado somente no primeiro dia do ano. Não sabia se era por causa do Reveillon ou por ser o aniversário de sua avó.
Naquele tempo, a cozinha era o coração da casa, lugar de junção de todas as visitas.

sábado, 23 de outubro de 2010

(continuação) - IV - Cotidiano


Na despensa, um bom estoque de conservas. Pêssego, figo, ameixa - da vermelha e da branca - goiaba, pêra, schmier e suco de uva. Também, os picles, cebolinha, pepino, couve flor, cenoura. Latas com biscoitos amanteigados e de polvilho.
Incrível, como mudam os conceitos – pensou - naquele tempo, servir uma mesa cheia de delicias, era uma demonstração de carinho. Pão sovado, cucas e doces não eram tipificados simplesmente: carboidratos – perigosa droga que causa dependência química. Naquele tempo, consumir carboidrato era prazer permitido. Não era pecado mortal!
Mas não eram só carboidratos que moviam aquele mundo.
O verdureiro passava todas as manhãs. Estacionava a carroça em frente a casa, ela corria para acompanhar a avó nas compras. Comprava-se de tudo, verduras e frutas da estação, ovos, manteiga, melado. Enquanto a avó escolhia, ela ficava na volta, tentando subir na carroça – Não pisa na roda que a carroça anda! – quanta vezes o verdureiro teria lhe advertido? Perdeu a conta. Ficava ali, ouvindo a conversa, em alemão, que avó e verdureiro entabulavam. Entre as compras, um cento de laranja - do céu e de umbigo - mais bergamotas e limas.
Depois do almoço, a avó sentava-se em uma cadeira, no pátio - para aproveitar o sol do inverno - com o balaio de laranjas ao lado. Retirava uma faquinha de um dos bolsos e, com os netos sentados a volta, descascava quantas laranjas bastassem para satisfazer a vontade e a gula da gurizada. Haviam duas opções de “corte” - com furinho ou com tampinha? Perguntava a avó.
No verão, eram as uvas. Colhidas da parreira e colocadas na geladeira, ficavam deliciosas, geladinhas. Também viravam um suco que só aquela avó sabia fazer.
Os sabores da infância são inesquecíveis, são temperados com “amor de vó” – especiaria que o tempo se encarrega de consumir.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

(continuação) - V - O cheiro


A casa exalava diversos cheiros, conforme o ambiente e o momento.
A cozinha, tanto poderia cheirar a bife feito na chapa como a baunilha, cravo, canela - dos papos de anjo e ambrosia.
Já o escritório do avô, cheirava a cigarro de palha e tinta de jornal.
O mais inesquecível, o que poderia ser denominado de “O cheiro da casa de minha avó”, encontrava-se no banheiro – uma mistura insólita de sabonete Phebo e fumo em corda, proveniente de grandes rolos do produto que ficavam armazenados em uma prateleira. Por mais estranho que possa parecer, ela gostava muito da mistura destes cheiros.
Sempre que sentisse este cheiro saberia que só poderia estar na casa da avó. Todos os outros cheiros poderiam ser sentidos em qualquer casa, mas esta mistura – só lá. Na casa da avó!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

(continuação) VI Os sons


O relógio
Os sons daquela casa também permaneceram gravados em um pen drive a prova de qualquer vírus ou extravio.
Havia um relógio de pêndulo que batia as horas, de uma forma tão pomposa que sempre sentia um pouco de medo, principalmente se fosse à noite. Era um som grave, bonito, bem definido. Parecia um gigante afirmando - “Ouçam! Prestem atenção. Eu só ando para frente, não volto. Vivam este instante com intensidade, ele passará Não existe como armazená-lo em um vidro, tampouco conta de poupança do tempo”. Talvez, por isto o medo inconsciente, o respeito que ele impunha e ao mesmo tempo cobrava. Era muito solene para ser tratado com descaso.


O rádio
É incrível como tudo é enorme quando se tem cinco anos. Era um rádio de válvulas, conforme, onde se colocasse o dedo, dava choque. Era uma coisa muito perigosa. Só gente grande podia manuseá-lo. Tocava dois tipos de “coisas” – notícias para o avô e marchinhas de carnaval para as tias. Desde bem pequena sabia, que quando o rádio falasse – “em Brasília são dezenove horas” – crianças e mulheres tinham que ficar de boca fechada. Respirar bem baixinho. O avô ouvia todos os dias o homem que falava aquilo – que em Brasília eram dezenove horas – ela não gostava, não podia falar com ninguém - tomava o café e saía de rapidinho para outro lugar da casa onde pudesse conversar.
Gostava mesmo quando suas tias ligavam o rádio e, ele – o rádio – só cantava músicas de carnaval. Lembrou da primeira música que aprendeu a cantar. Para sua surpresa, não foi com as tias, foi com o avô. Ele colocava um chapéu de palha e acompanhava o rádio – “eu vou pra Maracangalha eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou...” – aquilo era tão engraçado. Aprendeu com o avô e acompanhava as tias. Era tão bom quando elas cantavam as musiquinhas de carnaval. Riam felizes, conversavam muito, ela só conseguia decifrar as palavras: namorado, baile, saia godê ponche. Achava aquela saia a roupa mais bonita do mundo, era enorme, rodada. Mais bonita que a saia godê ponche só o vestido balão que a tia mais moça usou quando fez quinze anos.
Brincava, recortando bonequinhas de papel com a avó, enquanto as tias, cantavam e dançavam alegres, cheias de trejeitos, dizendo que tinham que ensaiar para o carnaval, dançando com os dois fura bolos, para cima...
Agora, enquanto observa o crescimento da ferrugem na pele de suas mãos, lembra daqueles momentos mágicos em sua vida. É tomada por uma deliciosa sensação de paz e felicidade, um arrepio nos pelos dos braços e cócegas no estômago.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

(continuação) - VII - O segredo



- Vó, o que é que tem dentro desta lata branca?
Guardada em um armário do quarto havia uma lata grande, redonda. Sempre que se deparava com lata, perguntava o que havia dentro. A avó, por sua vez, desviava a atenção para outra coisa. Levou muito tempo, até que certa vez, a avó lhe mostrasse o conteúdo. Ficou numa agitação ao ver a avó colocar a lata sobre a cama. Tinha só seis anos e estava descobrindo um tesouro – para ela, tudo o que era guardado, sem que soubesse o conteúdo, era um tesouro. A avó abriu a lata e retirou um embrulho de papel de seda contendo um véu e uma grinalda, amareladas pelo tempo. Era o véu que havia usado em seu casamento.Havia também um par de polainas brancas, de pelica, com muitos botõezinhos, que o avô usara na mesma data. Que emoção dividir aquele tesouro, aquele segredo, com a avó. Aquele dia jamais seria esquecido. Como de fato, nunca o foi.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

(continuação) VIII - Conclusão


Avós foram feitos para a gente lembrar e sentir saudades, quando o tempo começar a passar mais depressa. Para sabermos que, em algum lugar da nossa lembrança, existe um estoque de momentos de aconchego - morno nos dias de inverno e refrescante nos de verão. Que exista, nem que seja só na memória, um colo macio, um cheirinho de fumo em corda, um sabor de bife na chapa. Alguém que nos diga que somos bonitos, não cobre quilos a mais ou a menos. Que nos agrade nos acertos e, nos erros, passe a mão em nossa cabeça e nos console. Enfim, alguém que não nos julgue, não critique. Que não tenha como objetivo nos tornar o melhor, o mais inteligente, o mais bonito, o mais premiado, o mais... Simplesmente nos aceite, nos ame, bem assim, tortos e desajeitados, do jeito que somos. Assim é amor de vó – incondicional!
Afinal, amar o belo, o correto, o perfeito, é fácil, qualquer um ama
Talvez, por terem dado aos netos só o que tinham de bom, os avós tornam-se pessoas inesquecíveis de nossas vidas.
Não criticavam – aliás, criticavam nosso pai ou mãe, saindo em defesa dos netos e nós, os netos, deleitávamo-nos com alguém que, com toda a autoridade, pudesse reprimir o nosso repressor.
Por tudo, isto os avós vivem para sempre em nossas lembranças e, por esta razão, as biografias deveriam ser escritas somente por netos.