Sente aí meu irmão É uma coisa rara de ver O ano é bom, muito bom Estou feliz podes crer
A história de Dinorah você encontra em: DINORACOMAGANOFIM: Muito Prazer! Dinoracomagánofim.



Dinorah

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terça-feira, 5 de março de 2013

Droga de Helga!

Estou meio borocoxô. Não sei se é esta chuvinha, o resfriado, a preguiça...


- Hu hu! Olá Dinorah!

Ah meu Deus! Tudo menos uma visita da Helga! Não estou com vontade nenhuma de sair da minha concha, de encher os ouvidos com bobagens e asneiras. Não estou com vontade de rir – acho que gostaria mais é de chorar, sem saber por que nem por quem. Ai saco! Vou ter que dar um jeito e despachar a gorducha. Com uma cara azedíssima abro a porta e a criatura saltita na minha frente toda risonha e alegre. Tenho que dar um jeito de interromper o fluxo daquela energia alegrativa, afinal não estou a fim de ficar nem alegre nem feliz. Não entendi muito bem o traje que o ser estava usando. Uma coisa “temática” túnica indiana, faixa na testa, muitos colares e uma bolsa atravessada no ombro.

- Oi Helga – respondo com a cara amarrada e sem nenhuma empolgação.

- Dinorah, não adianta disfarçar, você estava assistindo “E o vento levou” e morrendo de chorar não é mesmo? Eu adoro chorar com a Scarlet...

- Helga, hoje não estou muito a fim de papo. Não estava assistindo nada e estou com vontade de ficar triste, de mau humor, azeda, de mal com a humanidade...

- Ah! Já sei! Você não está trocando seu azedume nem por uma mega sena acumulada não é? Sei bem como é isto. – Fala num tom de seriedade, demonstrando certa compreensão, fico aliviada. A criatura vai entender a minha idolatrada depressão e vai se mandar, deixando-me em paz. – Eu também, às vezes fico assim, não quero mais nada além de uma caixa de bombons e quem sabe uma coca zero.

- Eu não quero bombom nem coca zero. Só quero ficar sozinha. Sozinha entendeu Helga?

- Para com esta bobagem Dinorah, você nem viu o que tenho na minha bolsa – sacode uma enorme bolsa de tricô colorido na minha cara

- Trouxe uma coisa maravilhosa para curtirmos juntas.

O que será que a gorducha tem na bolsa? Pozac, valium, eufor? Mas eu não quero nada Quero ficar sozinha, com ela, esta depressão maravilhosa que me faz sentir um ser rastejante, sem serventia, só sentido pena de mim mesma. É tão horrível! Tão bom para me lastimar.

- Tá bom Helga, entre. O que você tem aí? – não adianta, eu conheço a praga. Ela não vai desistir então o melhor que posso fazer é ouvi-la e despachá-la em seguida.

- Tchan! Tchan! Tchan! – mostra uma caixinha de fósforo – Dinorah! Há quanto tempo você não dá um tapinha?

- Helga, eu não acredito que uma velha como você agora deu para fumar maconha?

- Ora, ora, vamos parar com esta repressão! Há muito tempo passamos da idade de “pegar o vício”, naquele tempo até que fumamos pouco. Vivíamos com um bando de loucos e no fim éramos quase caretas. Ganhei unzinho de uma amiga, guardei para uma ocasião especial e acho que este dia chegou. Vamos lá garota! Vamos reviver Woodstock! – esta criatura tem o dom de me tirar do sério, mas não sei como não rir daquele estrupício. O que é que uma velha daquelas quer fumando maconha?

- Criatura eu nem sei mais como se fuma isto, aliás, sempre achei meio saco não existir um fininho com filtro ou com piteira, sempre acabava por queimar as pontas dos dedos e os beiços. - Não se preocupe, tem um grampo aqui. Eu também não sei fumar muito bem.

Ajeita daqui, ajeita dali, a gorducha “ligou” a droga – literalmente – deu uma tragada e meio fanha exclamou:

- Maresshhhia... maressshhia. Dinorah, dá um tapinha.. – a gorducha estatelou-se entre almofadas que jogou no chão e, como se fosse uma metamorfose simbiótica, não se podia definir onde começavam as almofadas e onde terminava a Helga. Fumamos um baseado consideravelmente grande. Falei que estava achando meio estranho o gosto da porcaria, ela me garantiu que era a falta de prática. Que era erva das boas – “da lata”! Helga começou a delirar, falava mais asneiras do que nunca. Normalmente, de cara, ela é uma asneira ambulante, mas assim, drogada, era muito pior. Começamos a rir por qualquer bobagem. Helga me perguntou se eu já estava vendo elefante cor de rosa voando, gargalhávamos, chorávamos e ríamos ao mesmo tempo. Não sei quanto tempo ficamos assim, até que de repente a gorducha levantou.

- E aí velha Dinorah de guerra? Gostou da farra?
- Poxa Helga, quanto tempo eu não ria deste jeito, só mesmo com uma maconha, suspirei.
- Maconha nada doidinha! Fiz uma mistura de uns matinhos com orégano. Dinorah, você precisa gostar mais de ser feliz!

- Helga, você me paga! – fiquei furiosa, joguei uma porção de almofadas naquela criatura horrorosa. Chamei-a de mau caráter, desonesta, falcatrua, 171!

- Tchau Dinorah! Já vou. Consegui trocar sua autocomiseração por raiva de mim. É uma boa troca. - Bateu a porta e foi-se embora.

Fiquei ali, morrendo de ódio daquela velha hippie. Droga! E agora? Cadê a depressão que estava aqui? Procuro por todos os cantos e não consigo encontrá-la.

Vai ver a gorducha levou-a na bolsa! Droga!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

HELGA E O SÃO JOÃO.

Enfim, havia conseguido acalmar a turba. Os alunos enfeitavam a sala de aula para São João. Recortavam bandeirolas e estavam relativamente sob controle. Ufa!

- Hu! Huuuuu! Dinoraaah?

Na janela, uma caipira de cara redonda com as bochechas pintadas de rouge e pintinhas pretas, enfiava a cabeça para dentro da sala. Chapéu de palha, trancinhas com laços de fita vermelha completavam o visual. Não acreditei que a criatura pudesse fazer uma brincadeira dessas comigo!

- Helga, o que é que você quer? Não vê que estou em aula?

- Então esta bagunça é aula é? - a gorducha deu uma gargalhada exibindo um dente pintado de preto. Quis morrer, mas era tarde demais, os alunos já haviam passado sobre as bandeirolas e estavam grudados na janela rindo da caipira.

- Silêncio! Voltem para os seus lugares! Helga, por favor, vá embora! - implorava, mas ninguém me ouvia.

- Posso ajudar fazendo balões! Aqui na sacola tenho um pacote de paçocas! - a exibida nem terminou de falar e o coro começou:

- Ah! Professora! Deixa ela entrar! Deixa ela entrar!

É hoje que perco o emprego! O que é que esta louca tinha que vir aqui? Não conseguia mais controlar os alunos. De repente Helga já estava na porta da sala de aula. Consegui me espantar mais um pouco. O ser humano usava um vestido de chita vermelho com imensas flores amarelas, meias listradas. Os alunos com as mãos cheias de paçoquinhas rodeavam a gorducha. Tive vontade de chorar, de bater, de lhe arrancar o dentão preto a tapa.

- Então meninada, vamos fazer balões! - o estrupício esparramou-se no chão com toda a criançada a sua volta. Parecia uma montanha florida cercada de gnomos. Ela dobrava o papel para cá e para lá, ensinado-os a fazer balões. Quando ficavam prontos, assopravam e os balões ficavam gordinhos. As crianças exultavam quando o balão enchia. Ficavam orgulhosos mostrando a sua obra de arte.

- Dona Helga! Olhe o meu!
- E o meu! - todos pulavam ao redor da metida que distribuía paçoquinhas a rodo.

O sinal tocou e ninguém se mexeu. Jogada em um canto como se não existisse, resolvi tomar uma atitude.

- Pessoal já deu o sinal, a aula terminou. Vamos embora!

- A senhora pode ir! Nós vamos ficar aqui com a Dona Helga! - dirigindo-se para a criatura, o aluno ingrato implorou - A senhora fica mais um pouco com a gente não é Dona Helga? - a gorducha, feliz da vida, com a boca cheia de paçoquinha deu um sorriso exibindo o dentão preto e se fazendo de sonsa falou:

- Se a professora Dinorah não se importar...

Era só o que me faltava! Perder meu emprego para esta caipira maluca.
- Podem ficar com a DONA HELGA seus ingratos! - enquanto arrumava minhas tranqueiras ouvi a enxerida dizer que iriam dançar. Não dei a mínima pelota, na saída lancei um olhar fulminante para a gorducha que saltitava numa quadrilha. Ignorando totalmente a minha ira, devolveu-me um sorrisinho debochado gritando:

-
Olha a cobra!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O presente de Helga

Estava fazendo compras no mercado e eis que me deparo com quem? A criatura mais sorridente, alegre e saltitante da face da terra. Ela, a gorducha Helga!
- Dinorah querida! Como é que você está? - ela não consegue esperar que eu faça qualquer gesto, muito menos abra a boca, fica fazendo um sinal com o queixo, apontando para debaixo de seu próprio braço. Não consigo entender o que quer dizer, apenas reparo que tem uma coisa preta debaixo do sovaco, será uma bíblia?
- O que é isto? Uma bíblia?
- Ai Dinorah! - a criatura bufa e olhando-me com um certo desprezo exclama - você não está vendo o que tenho debaixo do braço? Impossível! Você não conhece um Netbook?
- Um o quê? Eu conheço computador sim! Mas não tão pequeno assim!
- É Dinorah! É um mini, um computador bem pequeno. - Nesta altura ela já havia tirado o computador debaixo do braço e colocado sobre uma gondola de batatas - e sabe do que mais? Aqui no mercado tem um negócio que posso usar a internet de graça - enquanto fala vai apertando botões até que aparece um jogo de palavras cruzadas. Escorada junto as batatas pergunta: Vereador com quatro letras? Pinha com três letras?
- Helga, que coisa mais chata! Onde já se viu fazer palavras cruzadas em cima de batatas! No super mercado! Você está tão exibidinha com este computardorzinho.
Irritada ela desliga o computador colocando-o debaixo do braço e começa um discurso.
- Nunca pensei que você fosse tão invejozinha! Este computador me custou uma bronca enorme com o Adolfo. Lembra do meu ausente de aniversário? Pois o insensível resolveu se redimir e comprou esta coisinha maravilhosa só para eu fazer palavras cruzadas.
- Helga, o que foi que você fez para o Adolfo lhe dar um computador? Prometeu alguma greve? De sexo por exemplo?
- Nada disto! - responde a gorducha saltitante - Muito pelo contrário, falei que se ele não me desse um presente ele teria que fazer sexo várias vezes por dia! - A gorducha dá uma gargalhada que ressoa por todo o mercado e prossegue - Em meia hora ele saiu e voltou com esta dádiva! - Fala isto e sai rebolando aquele bundão, com o bendito computadorzinho debaixo do sovaco. Lá do meio do mercado grita:
- Cá para nós, não fizemos uma boa troca?

terça-feira, 7 de junho de 2011

O AUSENTE DE HELGA

- Por que este beiço tão grande Helga? Cuidado! Se você pisar nele pode cair! - a criatura estava insuportávelmente mal humorada. Não falava, grunhia.
- Dinorah você me desculpe por vir até aqui lhe encher o saco por causa das minhas brigas com o Adolfo, mas se eu não desembuchar vou ter um treco! - A gorducha bufava, estava com as bochechas vermelhas e os olhos flamejavam de ira. Na tentativa de acalmá-la prometi fazer um café, ela não deu a mínima pelota, mudei o cardápio, ofereci uma coca zero. - Coca zero com o quê para comer?
- Tem um pudim de leite condensado...
- Pode ser... Tem bastante pudim ou só um restinho?
- Tem bastante.
- Ah! Está bom - gorda desaforada, ainda exige que seja bastante! - Dinorah você não imagina o que aconteceu. Você sabe que estive de aniversário, lembra? Você até me deu um colar muito bonito, mas você não imagina do que o Adolfo foi capaz de fazer comigo.
- O que foi que aconteceu minha amiga? - pronto, bastou um carinho para que a gorducha desandasse numa choradeira, soluçava alto, um choro sentido, fiquei com peninha da criatura. - o que foi que o Adolfo lhe fez? - a coitadinha tentando controlar o soluço contou.
- No dia do meu aniversário, já amanheci esperando o presente do Adolfo. Ele me deu os parabéns, beijos e abraços, mas eu queria um presente. Tomamos café da manhã e nada. Ao meio dia, nada. No final da tarde fui esperá-lo no portão e lá do meio da quadra vi que ele estava chegando com um buquê de flores, vi que estavam enroladas em um papel verde. Para não estragar a surpresa, corri para dentro de casa e fiz de conta que não havia visto nada. Fiquei bem quietinha, até ele entrar e colocar o "buquê" em cima da mesa. Todo alegrinho falou - Amor, passei no mercado e trouxe tomate, cebola e pepino! - tudo dentro de uma sacola verde.
- E você amiga?
- Ah! Eu fiquei muito mal. Me deu uma vontade de chorar mas a vontade de voar no pescoço do Adolfo e esguelar o ser humano, se é que aquilo é um ser humano- era muito maior. Perdi a classe e fiz um discurso sobre a insensibilidade, a grossura, a cavalice que habita aquele coração. - A gorducha desandou novamente no choro. Aos prantos, afastou o pratinho de sobremesa, puxou para perto de si o prato com o pudim inteiro e em poucos segundo nocauteou o infeliz doce.
Acabada a operação liquida pudim, a gorducha resolveu ir embora. Ainda estava com o nariz vermelho e os olhos inchados, mas antes rogou praga:
- "Deixa estar jacaré! Tua lagoa há de secar!" - Não me chamo Helga se o Adolfo não me pagar por toda esta humilhação! - bateu o portão e saiu fungando.
Pobre Adolfo! O que será que este estrupíco furioso vai aprontar? Sem saber já estou com dó.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Helga e suas pequenas maldades.

- Hu Hu! Dinoraaaah!!!
Adivinha se não é a gorducha?
- Helga que bom que você apareceu! Aceita um café com biscoitos. Hoje não tenho bolo para lhe oferecer, ando tão ocupada com os assuntos de escola... – não sei como consegui completar a frase, acho que foi só por que se tratava de comida que ela me concedeu uma brecha.
- Ora, ora, Dinorah! Como não aceitar uns biscoitinhos não é mesmo? - Vagarosamente a gorducha vai examinando toda a casa até chegar à cozinha onde preparo o café. Por alguns instantes permanece calada até que desembucha – Nossa Dinorah! Você está de mudança? O que são estas sacolas, caixas e pacotes esparramados por toda a casa?
- Nem me fale Helga! Ando tão ocupada com as atividades escolares que mal tenho tempo de me coçar, chego em casa e vou atirando tudo por aí mesmo. – Ela lança um olhar de reprovação, para não me deixar mal engole uma crítica, apenas sussurra – É... Você já foi mais organizada... – Enquanto a água ferve, sinto que ela me examina de cabo a rabo, mais precisamente o rabo e lança o veneno:
- Dinorah, é impressão minha ou você está mais cheiinha? O rostinho mais redondo? Você está corada, brilhosa! - Esta gorducha não dá trégua, tento encolher a barriga, mas é tarde demais – Aliás, desde que você começou com estas tais aulas você uma deu uma “arredondada” heim?
- Pois é Helga, nos dias em que a merenda é mingau de milho, manguzá, aproveito e como uma provinha... Confesso que adoro a merenda da escola. É uma delícia! O porteiro que é meu amigo sempre me avisa quando tem o que gosto...
- Dinorah, Dinorah! É bom você tomar cuidado! – Adverte a gorducha com um ar solene - os caras estão investigando o desvio de merenda. Se alguém tiver a idéia de lhe pesar antes e depois do recreio você está frita! Vão descobrir para onde está sendo desviada toda a merenda escolar.
- Helga, você acha que estou tão gorda assim?
- Ai, Ai! Não acho nada! Sugiro apenas que você não passe em frente à Polícia Federal.
Droga! Agora além de fugir da balança vou ter que correr da polícia?

sábado, 28 de maio de 2011

Os dentes de Helga.

- Dinorah sua Vaca Velha! Você anda sumida, vira e mexe passo por aqui e dou com o nariz na porta. – A gorducha me xinga aos berros lá do portão, saio correndo para evitar o escândalo, mas ela continua falando alto, diz que tem um monte de novidades.

- Entre Helga! Também estou com saudade. Vontade de saber das novidades. - Ela entra e se joga no sofá, respira fundo, faz uma careta, espreme os olhinhos e mostra os dentes, como se fosse uma cachorra velha, mais precisamente uma buldogona.

-Não estão lindos? – Fala entre dentes. - Resolvi que iria parar de adiar a visita ao dentista.

- Que bom! Eu também estou precisando...

- Dinorah você sempre me interrompe! Fui eu quem começou a contar a história, deixe-me continuar. – Respiro fundo, calo a boca e deixo que fale. - Estou indo naquele dentista bonitão sabe? Falei para ele que queria ficar com os dentes bem branquinhos e aqueles dois da frente bem grandões, como coelho, iguais aos da Xuxa.- Engulo o riso e penso: ela já vai ficar igualzinha a Xuxa! – Dinorah, acho que a Xuxa coloca silicone até nos dentes, cada ano estão maiores. – Tento dar um palpite, mas ela não para nem para respirar. – Você não imagina a fortuna que custou o tratamento. Quase caí da cadeira quando o dentista bonitão falou o preço. Ele justificou que seria caro assim por conta de uma anestesia geral. Resolvi negociar, falei que queria fazer o tratamento, se era possível dividir o pagamento em muitas parcelas. Sabe o que ele me disse? -e imitando a voz grossa do dentista, a gorducha exclamou: Dona Helga, a senhora está sugerindo um parcelamento do tipo “Minha Casa Minha Vida”?

-Isto mesmo doutor! A gente só muda o nome do plano para “Minha boca, Minha vida” e deixa o número de parcelas mais ou menos parecido com os financiamentos da Caixa Econômica. Eu quero ficar com os dentes bem branquinhos, mais aqueles dois grandões da Xuxa.

- Helga seus dentes estão clarinhos, mas não estão grandes...

- Poxa vida!- reclama a dos dentes brancos – é que você não me deixa falar! Eu tentei! Coloquei umas emendas para aumentar os dentes, mas deu problema. Como já tenho um pouquinho mais de idade, para os dentes aparecerem tinham que ser bem compridos, os beiços caem, como tudo depois de velha. Daí que eu dormia de boca aberta, roncava mais que o Adolfo que me disse que se eu não desse um jeito no ronco ele iria se separar. A solução foi voltar ao tamanho normal, só assim posso dormir de boca fechada.

Sinto uma vontade imensa de soltar uma gargalhada. Imagino o estrupício dormindo de boca aberta, com dois imensos dentes brancos saindo boca fora. Controlo o riso para não perder a amiga e digo que os dentes estão muito bonitos, bem branquinhos.

- É o resultado do clareamento com lazer. – declara a exibida.

- Helga, não é LAZER é LASER – corrijo.

- É nada Dinorah! Com aquele dentista bonitão, é com LAZER mesmo! – declara a gorducha que dá uma de suas estrondosas gargalhadas.

Pobre do dentista! Só mesmo com anestesia geral para fazer o estrupício parar de falar.

sábado, 14 de maio de 2011

Helga e a visita de Comadre Blonde.

Fui visitar a Helga. A casa estava toda aberta. Gargalhadas vinham da cozinha onde uma loira, alta, magra, muito bronzeada, com um vestido amarelo bandeira, falava alto e gesticulava. As duas riam muito e nem notaram a minha chegada. Sobre a mesa, caixas, caixinhas, vidros, vidrinhos, potinhos de todas as cores. Helga examinava com atenção e perguntava sobre os remédios. Estava encantada com um que parecia um disco voador roxo e lilás.
- Comadre que coisa mais linda este roxinho! E este prateado!
A Comadre se exibia com uma imensidão de remédios, explicando suas indicações. A gorducha examinava cada um como se fosse uma relíquia, senti certo olhar de inveja. Foi quando ela levantou, foi até o armário e lá de cima retirou uma enorme caixa plástica cor de laranja.
- Os meus estão aqui! – falou isto e exibiu com orgulho uma montoeira de remédios. Imediatamente a comadre parou de rir e reclamou:
- Ah! Assim não vale! Você tem mais remédios por que está em casa, eu estou viajando, por isto só trouxe os “básicos”!
Foi quando elas me viram. Helga saltou da cadeira correndo ao meu encontro.
- Dinorah, você não imagina que surpresa maravilhosa! Esta é a Comadre Blonde, ela e o marido vieram me visitar! – virando-se para a comadre, fez as apresentações – Comadre esta é minha amiga Dinorah! Ela é uma pessoa muito legal, pena que é um pouco deprimida – a comadre não deixou a Helga continuar. Abraçou-me, falou um muito prazer apressado, deu dois beijinhos e emendou:
- Dinorah, o que é que você toma para depressão? – não deu tempo para resposta, ela pegou uma caixinha com um nome estranho – eu tomo este aqui, é muito bom, dá um pouco de arritmia, mas então, para passar a “tremura” tomo este outro, que me dá um pouco de sono, para não ter tanto sono, tomo este outro... – e assim a Comadre Blonde enfiava um remédio atrás do outro, aquilo parecia um trem sem fim. Notei que os olhinhos da Helga brilhavam a cada novo remédio, todos coloridos como se fossem jujubas.
- Comadre, – interrompeu a gorducha – este negócio de remédio já está ficando chato! – estaria a Helga com ciúmes? A comadre estava com um estoque onde só havia lançamentos e a concorrência estava ficando desleal, para deixá-la mais enciumada comentei:
- Helga, quanta novidade! Você com seu estoque de Cafiaspirina, Maravilha Curativa, Olina, Bromil, emplastro poroso Sabiá, está um pouco ultrapassa. – a Comadre deu uma gargalhada que pôs as da Helga no chinelo, até os vizinhos do outro quarteirão devem ter ouvido.
Mudaram o rumo da conversa. Começaram a trocar elogios.
- Helga como você era chique! Lembro de você desfilando na Sete. Você usava saltos imensos, cabelos escovados cheios de brilho e movimento, uns óculos de sol maravilhosos! – a gorducha ouvia aquilo e fazia um biquinho com a boca, revirava os olhinhos e dizia:
- Ora comadre, não era tanto assim... – fazia-se de rogada, como se não estivesse gostando, mas estava estufada de tão faceira. – Você é que era chique. Sempre cheia de jóias, relógios, pulseiras. Nossa comadre! Como você era dourada e brilhante! – agora era a vez da comadre dizer que a chique não era ela. Assim elas seguiam se elogiando. Quando uma parava de elogiar a outra cada qual se auto elogiava
Enquanto as duas se perdiam em elogios, saí de fininho, nenhuma notou e se notou, não chamou. Naquela hora, existiam só as duas no mundo, cercadas das lembranças que desentocavam da memória.
- Lembra do aniversário de 50 anos do Conde? Como você estava chique Helga!
- Eu não Comadre, você é que estava elegante e bronzeada, como sempre. Aliás, o colar que você estava usando era um arraso!
As duas carinhosamente recordavam um tempo que não se sabe que fim levou. Vez que outra indagavam se tudo aquilo realmente aconteceu? Teriam existido aquelas lembranças todas? Bem poderiam ser um sonho. Aquela conversa mais parecia um delírio causado por uma overdose de gargalhadas. Ou, o sonho seria aquele encontro?
Ai meu Deus! Onde estará o remédio para acordar?


(ps.: obrigada pela visita Comadre! Foi muito emocionante.)

sábado, 23 de abril de 2011

Páscoa com torta alemã.

Com muita dificuldade, levanto do sofá e vou capengando atender ao telefone.
- Alô?
- Dinoraaah! Por que você demorou tanto para atender ao telefone? Estava dormindo?
- Não, é que ontem estava cuidando do jardim e caí. Escorreguei no pátio e estou toda escalavrada e renga. O Alberico tentou me levantar, mas você sabe, ele também já não está muito em forma e não conseguia... – ela não me deixa concluir.
- Meu Deus! Você está jogada no jardim desde ontem???!!! Estou indo aí para lhe juntar!
A criatura é doida mesmo. Se estive caída no jardim como é estaria atendendo ao telefone? Não demorou muito e o estrupício surgiu, pensei estar tendo uma alucinação. A criatura estava com umas imensas orelhas de coelho na cabeça e uns bigodes enormes desenhados na cara.
- Feliz Páscoa Dinorah! Trouxe uma garrafa de vinho e um ovo de páscoa que o coelho deixou para você. Como é que você está? Já está no sofá é? – Olha para minhas pernas, uma toda cheia de mercúrio e a outra, esticada sobre almofadas, quer saber o que houve.
- Pois é Helga, foi como lhe contei, escorreguei, uma perna foi para um lado e a outra para o outro. Aliás, não lembro quando foi a última vez que consegui abrir as pernas tanto assim. Gargalhamos juntas. Digo que estou toda torta e dolorida. A gorducha, que é muito carinhosa, demonstra preocupação, quer ajudar, falo que está tudo bem. Ela diz que vai buscar um copo d’água e some. Volta com a garrafa de vinho aberta e dois copos.
- Velha Dinorah! Vamos comemorar que seus ossos estão bem, que não foi desta vez que a osteoporose lhe pegou – serve um cálice e quando vai servir o outro digo que não posso beber.
- Helga, não posso beber, estou tomando anti-inflamatório.
- Eu não estou tomando nada então não tem problema. – e já entorna um gole – À sua saúde Véia! – descansa o copo e descasca o ovão de chocolate, tira uma lascona que enfia na boca.
- Helga me dá um pedaço! Chocolate eu posso comer! – ela me alcança um caquinho e volta a colocar o ovo trucidado em seu colo e assim passa a tarde. Falando, bebendo, falando e comendo.
- Dinorah, que pena que você não pode beber. Este vinho está uma delícia! – enche mais um cálice, já está meio grogue, e vejo que a garrafa já está no fim.
A criatura comeu todo o ovo que “o coelho deixou para mim” e também bebeu todo o vinho. Está bêbada. Já chorou imaginando como seria horrível se algo de “pior” tivesse acontecido comigo – isto é, se eu tivesse morrido. Ela é dramática, mas acho que também se faz de sonsa, assim não brigo com ela por ter comido todo o chocolate. Esfrega os olhos e os “bigodes” de coelho viram um borrão só. As orelhas ainda estão no lugar. Levanta-se cambaleando, diz que já vai, sinto que não vai dar boa coisa.
- Helga, espera que vou pedir para o Alberico lhe levar, pois do jeito que você está vai acabar caindo também.
A gorducha dá uma gargalhada e diz:
- Não tem problema, se cair e ficar toda torta o Adolfo poderá comer uma “torta alemã”, ou será um "alemã torta"?
A gorducha vai embora. Fico observando a silhueta daquele coelho gordo passar pelo portão onde deixa as orelhas enganchadas.
- Helga! As orelhas! – grito para ela.
- Deixa pra lá! Melhor perder as orelhas do que o rumo! – responde sem se virar, segue em frente cambaleante e, ainda sem se virar, grita – Feliz Páscoa Dinorah!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O mau humor de Helga.

Ainda estava muito mau humorada com a última sacanagem da Helga – aquela em que ela me fez fumar matinho com orégano dizendo que era maconha - “da lata”. Encontrei-a no mercado, estava esquisita, cabeça baixa, calada, não conversava com nenhum atendente ou cliente, não sorria. Fiquei preocupada.

- Olá Helga! Tudo bom? – pergunto meio sem graça.

- Tudo. – E foi só. A gorducha não falou mais nada, continuava a colocar alguns tomates na sacola, junto com abobrinhas e outras frutas e verduras.

- O que foi Helga? Você tem certeza de que está bem? – insisti.

- Mais ou menos.

- O que foi, brigou com o Adolfo?

- Que Adolfo que nada! – exclamou irritada, não sabia se a irritação era com o pobre Adolfo ou comigo.

- Mas então o que é? O que é que está acontecendo?

- Ah Dinorah! Que saco! Será que não tenho o direito de ficar ruim um dia na vida? Não tenho o direito de sentir uma dor de cabeça, uma sensação de febre, umas dores migratórias pelo corpo?

- Nossa Helga! Você está tão mal assim?

- To! Já tomei um buscopan – que é para as dores da cintura para baixo e um beserol que é para as dores da cintura para cima, mas continuo sentindo tudo igual. Helga é hipocondríaca, adora tomar um comprimido, ”salivo só de olhar para um botão de camisa, pensando que é aspirina” conforme aprendeu com uma amiga, famosa gourmet. Ela tem umas companhias que ajudam a aumentar o estoque de remédios e sintomas – Comadre Blonde, Suely e ela sofrem de “sensação de febre” sem ter febre alguma, são os únicos casos que conheço. Elas também têm dores migratórias. Ora a dor está num braço, ora na perna, ora nas costas e assim a dor vai de um lado para outro, “migrando” por todo o corpo. Ela e a Comadre Blonde, sempre que se encontram discutem os últimos lançamentos farmacêuticos. A comadre vive na cidade grande, tem mais acesso a droga legal então manda cartas contando dos lançamentos. Helga imediatamente sai às catas do remédio novo. Imagine se ela vai perder para a comadre! Não ter o último lançamento seria uma humilhação! Vai daqui, vai dali, ajudo a gorducha com as compras, convido para conversarmos num café novo que abriu na cidade. Sem muito ânimo e com total ausência de bom humor a criatura concorda. Peço um refrigerante e uma fatia de torta de chocolate. Ouço o pedido da minha amiga:

- Para mim uma água mineral sem gás... – fala aquilo como se estivesse morrendo, mal ouço a voz, não fosse o peso de seu mau humor diria que não havia ninguém comigo.

- Água mineral Helga?!

- É! Por quê? Não posso ser uma pessoa saudável? Parar de comer este monte de porcarias? Coisas que só fazem mal para o organismo e deixam a gente cada vez mais gorda? Que saco! Agora você vai fiscalizar o que como, o que bebo? – a gorducha me xinga muito, está furiosa. Não sei mais o que fazer, pergunto sobre as dores, sei que ela adora este papo de dor x remédio.

- Onde é que está doendo Helga? Posso ajudar? Talvez uma massagem?

Helga abre um berreiro em pleno café, assim como gargalha alto, também chora bem alto. Fico em pânico. O que pensarão os outros? Pensarão que bati na criatura. Continuo insistindo para que ela fale, que diga o que está acontecendo. Por fim ela capitula e confessa.

- Dinorah, eu não estou aguentando mais! Não consigo nem pensar que dói! Entra em desespero e chora outra vez.

- Helga, pelo amor de Deus! O que é que está acontecendo? Vou levá-la ao hospital. Você está mal!

- Não precisa! Não é nada. É que há duas horas decidi fazer regime. Desde então comecei a passar mal. Estou me sentindo mal, com dores, depressão, desespero, raiva, ódio! – fala bem alto, quase gritando e por fim dá um berro – Quero morrer!!!

Desta vez quem dá a gargalhada sou eu.

- Por favor! Uma fatia de torta de chocolate e uma coca zero! – Empurro o prato para frente da minha amiga, que seca as lágrimas que lhe escorrem pelo rosto vermelho de tanto chorar. Entre soluços, espeta o garfo no bolo, saca um enorme pedaço de massa envolta em abundante camada de calda, enfia de uma só vez na boca. Come todo o bolo calada, catando todas as migalhinhas. Diz que o bolo está com um gosto diferente, mas se auto consola alegando que deve ser o tempo que passou sem comer chocolate – umas 4 horas, quem sabe.

- Querida! – fala, gentilmente, dirigindo-se a atendente - Por favor, consegue mais um pedaço! – da um suspiro, e com um sorriso nos lábios declara – Dinorah minha linda! Não há remédio que cure minha depressão, mau humor, dor nas costas, unha encravada, dor de cotovelo, como um bom pedaço de bolo de chocolate! Bendito cacau, bendito açúcar! Só eles para me causarem esta sensação de bem estar! A gorducha está feliz! Rindo a toa. Agora acho que chegou a vez da minha vingança:


- Helga, você tem certeza que está bem? Feliz?

- Estou! Estou de bem com a vida. Graças ao Doce!

Pego minha bolsa, pago a conta, deixo a gorducha se entupindo de bolo de chocolate.

- Tchau Helga! Fico feliz por você ter gostado deste novo café. Aqui só servem doces diet, a base de aspartame!

Saio rápido. Quando alcanço a porta um tomate passa de raspão por minha orelha e uma abobrinha cruza o céu sobre minha cabeça.

- Dinorah sua vaca! Você me paga!

sábado, 9 de abril de 2011

Droga de Helga!

Estou meio borocoxô. Não sei se é esta chuvinha, o resfriado, a preguiça...


- Hu hu! Olá Dinorah!


Ah meu Deus! Tudo menos uma visita da Helga! Não estou com vontade nenhuma de sair da minha concha, de encher os ouvidos com bobagens e asneiras. Não estou com vontade de rir – acho que gostaria mais é de chorar, sem saber por que nem por quem. Ai saco! Vou ter que dar um jeito e despachar a gorducha. Com uma cara azedíssima abro a porta e a criatura saltita na minha frente toda risonha e alegre. Tenho que dar um jeito de interromper o fluxo daquela energia alegrativa, afinal não estou a fim de ficar nem alegre nem feliz. Não entendi muito bem o traje que o ser estava usando. Uma coisa “temática” túnica indiana, faixa na testa, muitos colares e uma bolsa atravessada no ombro.

- Oi Helga – respondo com a cara amarrada e sem nenhuma empolgação.

- Dinorah, não adianta disfarçar, você estava assistindo “E o vento levou” e morrendo de chorar não é mesmo? Eu adoro chorar com a Scarlet...

- Helga, hoje não estou muito a fim de papo. Não estava assistindo nada e estou com vontade de ficar triste, de mau humor, azeda, de mal com a humanidade...

- Ah! Já sei! Você não está trocando o azedume nem por uma mega sena acumulada não é? Sei bem como é isto. – Fala num tom de seriedade, demonstrando certa compreensão, fico aliviada. A criatura vai entender a minha idolatrada depressão e vai se mandar, deixando-me em paz. – Eu também, às vezes fico assim, não quero mais nada além de uma caixa de bombons e quem sabe uma coca zero.

- Eu não quero bombom nem coca zero. Só quero ficar sozinha. Sozinha entendeu Helga?


- Para com esta bobagem Dinorah, você nem viu o que tenho na minha bolsa – sacode uma enorme bolsa de tricô colorido na minha cara


- Trouxe uma coisa maravilhosa para curtirmos juntas.

O que será que a gorducha tem na bolsa? Pozac, valium, eufor? Mas eu não quero nada Quero ficar sozinha, com ela, esta depressão maravilhosa que me faz sentir um ser rastejante, sem serventia, só sentido pena de mim mesma. É tão horrível! Tão bom para me lastimar.

- Tá bom Helga, entre. O que você tem aí? – não adianta, eu conheço a praga. Ela não vai desistir então o melhor que posso fazer é ouvi-la e despachá-la em seguida.

- Tchan! Tchan! Tchan! – mostra uma caixinha de fósforo – Dinorah! Há quanto tempo você não dá um tapinha?

- Helga, eu não acredito que uma velha como você agora deu para fumar maconha?

- Ora, ora, vamos parar com esta repressão! Há muito tempo passamos da idade de “pegar o vício”, naquele tempo até que fumamos pouco. Vivíamos com um bando de loucos e no fim éramos quase caretas. Ganhei unzinho de uma amiga, guardei para uma ocasião especial e acho que este dia chegou. Vamos lá garota! Vamos reviver Woodstock! – esta criatura tem o dom de me tirar do sério, mas não sei como não rir daquele estrupício. O que é que uma velha daquelas quer fumando maconha?

- Criatura eu nem sei mais como se fuma isto, aliás, sempre achei meio saco não existir um fininho com filtro ou com piteira, sempre acabava por queimar as pontas dos dedos e os beiços. - Não se preocupe, tem um grampo aqui. Eu também não sei fumar muito bem.

Ajeita daqui, ajeita dali, a gorducha “ligou” a droga – literalmente – deu uma tragada e meio fanha exclamou:

- Maresshhhia... maressshhia. Dinorah, dá um tapinha.. – a gorducha estatelou-se entre almofadas que jogou no chão e, como se fosse uma metamorfose simbiótica, não se podia definir onde começavam as almofadas e onde terminava a Helga. Fumamos um baseado consideravelmente grande. Falei que estava achando meio estranho o gosto da porcaria, ela me garantiu que era a falta de prática. Que era erva das boas – “da lata”! Helga começou a delirar, falava mais asneiras do que nunca. Normalmente, de cara, ela é uma asneira ambulante, mas assim, drogada, era muito pior. Começamos a rir por qualquer bobagem. Helga me perguntou se eu já estava vendo elefante cor de rosa voando, gargalhávamos, chorávamos e ríamos ao mesmo tempo. Não sei quanto tempo ficamos assim, até que de repente a gorducha levantou.

- E aí velha Dinorah de guerra? Gostou da farra?

- Poxa Helga, quanto tempo eu não ria deste jeito, só mesmo com uma maconha, suspirei.

- Maconha nada doidinha! Fiz uma mistura de uns matinhos com orégano. Dinorah, você precisa gostar mais de ser feliz!

- Helga, você me paga! – fiquei furiosa, joguei uma porção de almofadas naquela criatura horrorosa. Chamei-a de mau caráter, desonesta, falcatrua, 171!


- Tchau Dinorah! Já vou. Consegui trocar sua autocomiseração por raiva de mim. É uma boa troca. - Bateu a porta e foi-se embora.

Fiquei ali, morrendo de ódio daquela velha hippie. Droga! E agora? Cadê a depressão que estava aqui? Procuro por todos os cantos e não consigo encontrá-la.


Vai ver a gorducha levou-a na bolsa! Droga!

domingo, 3 de abril de 2011



Sábado à tarde, um calorão do cão, louca para ir à praia, mas um resfriado não me deu alternativa que não preparar aulas – o brinquedo novo que descobri. Eis que ouço uma voz conhecida:


- Hu! Hu! Dinorah? Comansává?

- Helga! Há quanto tempo! Entra que saudades! A gorducha, toda perfumada colorida e faceira, engrena um rebolado, faz biquinho e me indaga em francês:

– Sávábian?

- O que é isto criatura! Agora deu para receber um santo francês? Foi só passarmos algumas semanas sem nos vermos que você virou francesa?

- Ai Dinorah! Nem lhe conto! – joga-se na rede, ajeita o corpanzial, reclama que depois será um sacrifício sair da tal rede, mas que adora se sentir suspensa no ar. Cutuca a parede com o pé para conseguir um embalinho – Hoje pela manhã, minha irmã Maria da Glória, aquela que é muito chique, ligou. Contou que está de malas prontas para comemorar o aniversário de casamento em Paris. Ah! Parrrriii! Como é linda! Que saudades! Da última vez que estive lá, lembro de ter saboreado queijos deliciosos.

- Só um pouquinho Helga. Quantas vezes você esteve em Paris? Que eu saiba, só uma. – a criatura suspensa e embalante, olhando para o nada faz um olhar de menosprezo, estala os lábios e afirma:

- Então, se fui só uma vez não importa, interessa é que, casualmente, foi a última vez que estive na Cidade Luz! Dinorah, vou lhe confessar uma coisa, não conte para ninguém, mas estou morrendo de inveja da Maria da Glória, você sabe, ela é meio metida, exibida, gosta de coisas chiques. Eu não a condeno por isto, afinal, também gosto de tudo isto, mas eu sei que ela é boa para línguas e vai voltar falando francês bem direitinho, por isto já estou ensaiando o meu. Não vou perder para ela. Já estou imaginando Glorinha fazendo biquinho para falar. Droga! Que inveja!

- Helga, deixa para lá este negócio de ciúmes. A Maria da Glória é uma pessoa tão legal, basta os telefonemas sem fim que vocês duas trocam e, se não me engano é sempre ela quem paga, sei bem que você liga e ela imediatamente diz para você desligar e ela liga em seguida.

- Ah! Dinorah! Pare de defender a Glorinha, o marido dela é cheio do dinheiro, apaixonado por ela, tá pouco se lixando se ela gasta uma hora em cada conversa que temos. Ele adora fazer as vontades dela. – faz mais um muxoxo e reclama – acho que agora também estou com inveja do marido da Glorinha. Mas o que é que você está fazendo? Não vai dizer que está às voltas com assuntos de aula? Dinorah, você anda um saco! Só pensa em aulas e histórias de alunos. Aliás, você descobriu quem foi que acrescentou o “nome” no final da relação de alunos que estava afixada na porta da sala de aula?


- Quem? O “Fida Peste”? Descobri! Foi no final da aula sobre Portinari. Passei duas horas falando e mostrando algumas gravuras com as obras em que o artista retratava o cotidiano, casamento na roça, trabalhadores, festa de São João etc. Foi quando ouvi uma criatura miúda – por que será que os miúdos são tão cheios de energia? - reclamar:

- Professora, a senhora falou o tempo inteiro que esse homem pintava o cotidiano, mas a senhora não mostrou nenhum retrato dele.

– Dele quem? – indaguei.

– Do Cotidiano, Fida peste!

A gorducha deu uma gargalhada, sacudindo-se na rede e assim que se recuperou perguntou:

- Dinorah, lembra-se da Irmã Calinda? – deu uma gargalhada ainda maior e repetia Caliiiinda imitando o sotaque da pobre freirinha. Helga e eu fomos colegas de primário e ginásio em um colégio de freiras, onde a maioria das professoras eram irmãs franciscanas alemãs, falavam com sotaque carregado. O nome correto da freirinha era Carlinda, mas ela não pronunciava o erre e a gente se divertia com aquilo. Pois ela foi nossa professora de Português. Pasmem! Aprendemos a conjugar verbos e análise sintática com ela – algumas, confesso, aprenderam mais do que eu. Tinha também a Irmã Aline que ensinava artes, nos ensinou a fazer fantoches de papel machê.

- Eu nunca consegui fazer um fantoche. Acabava fazendo umas bolotas de papel machê que grudava na lente dos óculos e ficava me fazendo de cega no meio da sala de aula – declarou entre risos a da rede.

Passamos a lembrar os tempos de escola. Rimos muito, éramos umas pestes. Eu nem tanto, mas a Helga! Ela era impossível, os professores não podiam vê-la que já a colocavam de castigo, antes mesmo que abrisse a boca e aprontasse alguma.

- Helga, lembra de uma fase que roubávamos a merenda dos professores? E aquela vez em que subimos na torre a Igreja e não conseguíamos descer? E quando matamos aula para pegar autógrafo dos “Brazilian Beatles”?

Fiquei com medo de que a rede com a gorducha não resistisse e viesse ao chão de tanto que ríamos.


- Dinorah, sabe de uma coisa? Fida Peste fomos nós duas – melhor: Fidêpêstê, fica mais chique!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Helga e os animais em extinção


- Dinorah estou inconformada! – a gorducha dá um gemido misturado com bufada, já deu para sentir que ela não está nos seus dias.
- O que foi Helga? O que aconteceu?
- É o Adolfo! A criatura anda numa preguiça que está me dando nos nervos. É um tal de me alcança isto, me alcança aquilo. Imagina que hoje ele me disse que não iria cozinhar. Adivinha para quem sobrou? Para mim! Ora, onde já se viu? Ele sabe que estou numa fase em que não consigo nem passar na porta da cozinha, quanto mais chegar perto do fogão e da pia.
- Helga, você não está sendo muito carrasca com o Adolfo? Afinal, esta sua “fase” já tem algum tempo. .
- E também não estou aguentando lavar louça. – completa a gorducha indignada.
- Então, esta reclamando do quê? O que custa cozinhar um dia?
- Não adianta você tentar me acalmar, estou de saco muito cheio, já é o segundo dia que cozinho este mês. - ela sacode o pezinho, nervosamente - Você sabe Dinorah, é assim que começa. Cozinho um dia, depois outro, e mais outro, e por fim a criatura acaba pegando gosto pela folga e quem se dana sou eu. Cozinhando, lavando, todo o santo dia. Mas já dei um basta!
- O que foi que você fez Helga? Você brigou com o Adolfo?
- Não, não briguei. Só esclareci que se ele não mudasse o caldo poderia entornar. Falei que não pensasse que é uma espécie rara de animal em extinção. Que ele não é nenhuma “ararinha azul” para ser tão valorizado. – bem baixinho sussurra no meu ouvido – cortei as asinhas do Adolfo, agora ele está uma doçura. - A gorducha para de sacudir o pezinho, levanta e num suspiro de alívio, declara:
- Ele já prometeu que amanhã o almoço e a louça são por conta dele! – dá uma sonora gargalhada e emenda – O dia em que ele descobrir que é o meu "mico-leão-dourado" estou lascada!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fantasia de carnaval da Helga.

A Helga anda preocupada. Ontem quase que não me deixava falar de tanto que comentava sobre fantasias de carnaval.
- Dinorah, eu gostava mesmo era de pegar “O Cruzeiro”, para copiar as fantasias de carnaval. Hoje em dia não existe mais de onde tirar inspiração – a gorducha suspira como se fosse um caso de doença terminal. – Na minha idade, já me fantasiei de tudo o que você possa imaginar. Quando criança minha mãe me fazia fantasias de tirolesa, baiana, cigana. Depois, mais jovem, gostava de fantasias charmosas como odalisca, melindrosa, Cleópatra.
Lembro de uma fotografia, em que ela não estava nada charmosa. Estava fantasiada de cachorro quente.
- Helga, e aquele ano que você saiu fantasiada de cachorro quente? Você não está lembrando? – a criatura se faz de louca, diz que não lembra muito bem – Helga, por que você não está lembrando aquele carnaval?
- Ai Dinorah! Que saco! Você sempre querendo me fazer retornar a minha fase rebordosa, você sabe que prefiro esquecer aquela época. Foi um período em que estava muito difícil encontrar um namorado então resolvi apelar. Fiz uma fantasia de cachorro quente. Pensei em fazer uma de pizza, mas como sou um pouco cheiinha a pizza ficaria grossa demais, já cachorro quente é uma coisa assim, mais fofinha.
- Acho engraçado alguém se fantasiar cachorro quente. Onde já se viu fantasia de comida?
- Hã Hã Dinorah! Agora você matou a charada! Você sabe que sou muito inteligente, então pensei: - se fizer uma fantasia de comida, quem sabe, se lá pela metade do baile não aparece algum folião morto de fome e deseje comer alguma coisa? Sacou? Sacou? – a gorducha dá uma gargalhada mostrando um sorrisinho cheio de más intenções. Acho aquilo um horror, mas minha curiosidade é maior.
- E você encontrou algum folião faminto? Alguém que comesse o cachorro quente? – Ela fez um gesto de deixa prá lá, e respondeu meio encabulada.
- Que nada, foi um fracasso! A única coisa que consegui foi uma coca cola grátis do moço da carrocinha de cachorro quente. O pessoal achou que eu estava fazendo propaganda. Ele nunca vendeu tanto cachorro quente como naquela noite!


Caímos na gargalhada. Esta Helga tem cada idéia!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A faxina de Helga.

- Hu Hu! Dinorah? Você está aí? Abra depressa o portão. Estou apertada!
Deus do céu! A gorducha é escandalosa mesmo! Toda a vizinhança tem que saber que está louca pra fazer xixi. Corro para abrir o portão. A criatura passa apressada para o banheiro – o Alberico está em casa? - Respondo que não – então nem vou fechar a porta!
- Vou fazer um café pra nós duas, já vi que a sacola da padaria está bem grande hoje!
- Pois é Dinorah, acho que descobri por que estou gorda.
- Por que, minha linda? O ar que você respira é muito calórico ou é a água?
- Nada disto! É por que sou muito boa.
- E desde quando bondade engorda Helga?
- É que não posso ver o menino das empadinhas que compro, morro de peninha do coitadinho. Depois vem o rapazinho do sonho, tem o outro que vende quebra-queixo...
Ela sempre arranja uma maneira habilidosa de escapar de algum comentário sobre o seu peso. Antes que eu fale qualquer coisa, ela já está na defensiva e, ainda, se faz de coitada. Sirvo o café e ela retira um saco de biscoitinhos de polvilho e vai “tungando” os biscoitos no café. Com um imenso sorriso comenta o quanto gosta disto, - faço isto desde criança! - Fala num orgulho como se fosse o Nobel do bom gosto e boas maneiras.
- Helga, outro dia você falou que fez faxina em uma Igreja, no tempo em que morou na Alemanha. Você nunca me contou sobre isto.
- Ah! Dinorah! O que é que você quer relembrando coisas de mil anos atrás? Já nem sei mais se aquilo tudo aconteceu ou se li em um livro.
- Mas é verdade mesmo? Você fazia faxina em uma igreja?
- Fazia, fazia – responde sem muita paciência – não era bem em toda a igreja que, aliás, era meio sem graça, era uma igreja luterana, daí que não tinha santos e estas coisaradas de altar católico barroco. A faxina mesmo era no escritório do pastor. Minha amiga Rosário é quem detinha o título de faxineira oficial, eu só fazia faxina sozinha quando ela viajava – você sabe, nunca dominei a língua alemã – ora “dominei’, - esta Helga sabe se valorizar penso comigo mesmo. Ela se anima e vai falando. – A primeira vez, a minha amiga me levou junto e me apresentou ao pastor e lhe disse que, como ela não poderia vir no próximo sábado, eu viria no lugar dela, também explicou que eu não falava chongas de alemão – é claro que ela não disse “chongas” para o pastor não é Dinorah, Rosário era educada – dá uma risada e completa – não muito.
O pastor nos entregou as chaves e fomos para o tal escritório. Uma peça de tamanho normal, umas quatro escrivaninhas, todas limpíssimas, móveis antigos de madeira lustrosa. Dinorah, para te encurtar, acho que ali não precisava limpar nada, era só recolher os papéis das lixeiras, passar um pano nos móveis e dar uma varridinha, coisa de meia hora, mas a Rosário me disse que deveríamos levar duas horas. Para cada uma ganhar 10 marcos. Se fôssemos muito rápidas, nosso trabalho não seria valorizado e ganharíamos muito pouco. Perguntei para ela o que faríamos em duas horas? Não havia o que limpar.
- Poxa Bolota, você é um saco! O negócio é o seguinte: a gente liga o aspirador de pó e o deixa parado em um canto, enquanto isto a gente come uns biscoitinhos que uma frau sempre tem aqui na gaveta. Mas não podemos comer muitos. Ela pode ter contado os biscoitos.
- Então Dinorah, nós nos sentávamos em cima de uma das escrivaninhas, comíamos biscoitos, conversávamos e ríamos. Até que a minha amiga dizia:
- Bolota, este aspirador de pó está muito tempo em um só lugar, desliga e liga lá no outro canto. O pastor mora aqui em cima e vai achar que a gente só limpa o mesmo canto.
- Assim, íamos trocando o aspirador de um lado para outro. Passada as duas horas, guardávamos o material e entregávamos as chaves ao pastor, que já abria a porta com os vinte marcos na mão. Agradecíamos tão educadas quanto duas freirinhas de caridade. Saímos discretamente até chegar à esquina onde dávamos pulinhos de faceiras e corríamos até uma cantina italiana, onde trabalhavam uns garçons muito gentis, apaixonados pelo “Falcão, o rei de Roma!” - e só por isto, ganhávamos um bom desconto, por que éramos brasileiras. Comíamos pizza marguerita, tomávamos vinho. Total da conta com o desconto: Vinte marcos. Entregávamos o dinherio que acabara de sair da mão do pastor e saímos felizes. A Rosário sempre dizia:
- Bolota, a gente se dana com este frio e esta neve até os joelhos, mas é muito bom! – o rosto da Rosário ficava vermelho, não sei se por causa do frio ou do vinho.
A gorducha dá uma de suas gargalhada, faz uma expressão de “impróprio para menores”
- Dinorah, você não imagina o que aprontamos naquela terra, uma vez a Rosário fez xixi no balde - a gorducha sacode os peitos e a barriga de tanto rir - mas já faz tanto tempo que nem lembro mais... E se lembrar é melhor esquecer!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Helga, a professora de samba.

Lembrei que minha amiga Helga deveria estar meio deprê, como sempre fica depois da visita da irmã. Dei uma chegadinha na casa dela. Foi o Adolfo quem abriu a porta.
- Entre Dinorah, a Helga está lá nos fundos - e cochichando no meu ouvido prosseguiu – que bom que você veio, ela está meio triste, você sabe como ela fica depois que a Hilda vai embora.
Fui até o pátio e lá estava a gorducha sentada em uma rede, com os pés metidos em uma bacia com água.
- Vai fazer os pés Helga?
- Que nada! Estou com eles na salmoura. Passeei tanto com a Hilda que quase perco o couro da sola dos pés! - Disfarcei a vontade de rir. A Hilda é magrela e ágil. Caminha, caminha e está sempre disposta, já a gorducha é um tanto preguiçosa, gosta de caminhar, mas num passo estilo jabuti. – Sabe Dinorah, toda vez que a Hilda vai embora eu fico assim, meio triste, sem rumo. Penso em quando é que a verei novamente, enfim, dá saudades dos outros irmãos. – enquanto fala, com a cabeça baixa, olha para as ondinhas que faz com os pés na água
- Helga, você já viu como a cidade está movimentada com forró que vai acontecer na praia? – Comento sobre a festa para ver se melhoro o seu astral. Imediatamente ela reage, esboça uma ameaça de sorriso e responde.
- Ah! Que saudades do tempo em que eu dançava! Você sabia que já dei aulas de samba?
- Não, não sabia – respondo pasma, da onde que aquela criatura sabe sambar? Tem tanta jinga quanto um poste de concreto. Tento disfarçar a minha descrença, mas ela percebe me repreende.

- Dinorah, às vezes você me irrita! Sempre duvida do que lhe conto, mas é verdade. Sabe aquele tempo em que morei na Alemanha?
-É claro que sei Helga, você já me contou inúmeras histórias de sua fase rebordosa. Inclusive do tempo em que morou na Alemanha. - aproveito e dou nos dedos da exibida – Aliás, onde você morou um ano e por pouco não voltou muda. Não aprendeu a falar alemão e quase esqueceu o português!
- Isto não vem ao caso. Alemão é muito difícil mesmo, mas aprendi a gesticular em todas as línguas. Lembra da amiga grega que te contei? Passamos uma noite inteira fazendo fofoca dos companheiros de apartamento. Ela não falava o português, eu não falava grego, mas a gente se entendia perfeitamente. Conseguimos falar mal de todos! Bom, mas você sabe, eu me virava por lá cuidando de crianças, fazendo faxinas, inclusive em uma igreja, lembra? Foi aí que surgiu a oportunidade de dar aulas de samba. Foi a Rosário, uma paulista que morava por lá quem me convidou.
- Bolota, - era assim que a Rosário me chamava - você tem aquela fita K7 da Beth Carvalho? Conheço uns gringos que querem aprender a dançar samba e pensei que nós duas poderíamos ensinar. - Eu fui sincera, falei para Socorro que quando muito eu saberia dançar um vanerão, mas sambar? Ela me disse que eu não me preocupasse que era coisa simples e a gente poderia ganhar algum dinheiro.
- E daí? – perguntei – Vocês ganharam muito dinheiro com as aulas? - Olhando para os pés dentro da bacia com salmoura, com um jeito sem graça, Helga confessou:
- Pois é, - falou meio constrangida - na primeira aula foram uns dez alunos, mas era só uma demonstração, era grátis. Na aula seguinte não apareceu nem meio aluno. Sabe Dinorah, nunca consegui saber o porquê da falta de alunos. Fiquei muito triste, me senti como passista de escola de samba rebaixada para o grupo de acesso. Fazer o quê se as pessoas não sabem valorizar uma cultura exótica não é mesmo? Mas o esforço não foi em vão. Fiquei muito amiga do Herr Silva, um moreno bonito, lá do Sry Lanka, que havia comparecido a primeira, e única, aula. - A gorducha falou isto e dando uma de suas gargalhadas saltou de dentro da bacia de salmoura e, saracoteando como se estivesse recebendo um santo epilético – que imagino fosse sua jeitosa maneira de sambar - cantava

“...Chora! Não vou ligar Não vou ligar! Chegou a hora Vais me pagar Pode chorar Pode chorar...”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Novidades.


Aqui pela Marambaia o que não faltam são novidades. Toda a manhã vejo aquelas duas figuras, Helga e Hilda passarem. Vão num passinho apressado, demonstrando urgência em chegar na praia onde bebem caipirinha, Underberg com coca zero e enchem o pandulho de tapioca. Enquanto isto o Adolfo come lingüiça, toma cerveja e dorme. – Aliás, pelo tanto de linguiça que a Hilda trouxe não sei como a cachorrada não veio correndo atrás dela.
A Hilda andou tendo uns ataques de saudades. Seu filho mais novo, mais uma vez, passou no milésimo vestibular, desta vez em primeiro lugar do curso que escolheu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Daí que a Hilda queria antecipar o retorno para casa, mas tanto a Helga insistiu que ela acabou ficando mais um pouco. Helga, já contou para toda a Marambaia que tem um sobrinho que é gênio – Puxou a mim! – afirma a gorducha sem o menor constrangimento.

Enquanto isto, a outra irmã da Helga, a Maria da Glória, está com a família – marido e filha - passando férias na casa de outro sobrinho no Rio de Janeiro. Nestas alturas do campeonato, a “Família Feliz” já deve ter tirado fotografia até dependurada no sovaco do Cristo Redentor! - cá para nós, que ninguém me ouça, a tal da Maria da Glória é toda metida à chique, mas já vi esta criatura tomar cada porre! É quando ela canta, ri, dá umas gargalhadas até se desfazer em prantos. É assim toda vez que bebe. A estas alturas, já deve estar lá pelos arcos da Lapa, sambando, achando que é passista da Mangueira e o marido o Carlinhos de Jesus. – agora lembrei que a Maria da Glória foi para o Rio sem tirar os pontos de uma cirurgia de que fez na barriga – será que assim mesmo irá sambar?
Fico pensando como estará o pobre sobrinho e a esposa - a Helga, sempre se exibe dizendo que o sobrinho e a esposa são doutorados, pós-doutorados, enfim, finíssimos! - convivendo com a hiper expansiva “família feliz”?
Aliás, esta familia da Helga deve se dar bem. Vivem uns na casa dos outros, andam sempre com as malas cheias de comidas para cima e para baixo. Nunca vi como gostam de uma junção!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Helga e sua história de amor - Lado A.

(requentada - original publicada em junho de 2010)
Helga contava com bem mais de 40 anos.
Nunca foi uma beldade, mas em toda a sua vida, foi aos 40 que ficou mais vistosa.
Naquela altura do campeonato, ela já havia tentado de tudo para encontrar a alma gêmea, a paixão de sua vida.
Enfim, a razão para ter nascido:
Viver um grande amor!
Morava em apartamento próprio, tinha seu próprio carro, assava seu próprio churrasco.
Era uma profissional muito cobiçada no mercado.
Só não era cobiçada para ser namorada de ninguém.
Fez terapia.
Todas que se puder imaginar, fróidiana, iunguiana, raichiniana, transcendental, vidas passadas, regressão.
Sem contar que por muito tempo sustentou uma cartomante. Foi quando resolveu comprar um tarô e aprender a lançar a própria sorte, pois caso contrário teria que declarar falência em breve.
Freqüentava bons ambientes.
Academias de ginástica, clubes, restaurantes, centro de cultura, assistia todos os filmes. De Wim Wenders, a Mazaropi. Mas sinceramente, os filmes que mais gostou, e nunca disse, eram “Uma Linda Mulher” e “O vento levou”.
Morou quase um ano num mosteiro no Tibet, pra ver se largava dessa idéia ridícula que é uma mulher passar a vida atrás do grande amor.
Tentava praticar o desapego, a ser zen.
Apaixonou-se por homens mais velhos, mais moços, com cultura, sem cultura, com dente, sem dente, com cabelo, sem cabelo, gordos e magros.
Enfim, nunca discriminou partido.
Quem sabe não estaria ali o príncipe?
Já estava prestes a se apaixonar pelo apresentador do noticiário.
Afinal, todas as noites, ele lhe dizia um “Boa noite!” de um modo tão romântico, tão intimo e pessoal...
Quando já estava desistindo, resolveu que a última alternativa seria a Internet.
Muito temerosa, adentrou naquele mundo que até hoje não sabe bem onde fica, o virtual.
Sentiu medo, receio.
Tantos casos de psicopatas, loucos, assassinos, pedófilos. Bem, no caso não era o caso. Existiriam velhófilos?
O resumo da ópera?
Foi ali, no mundo virtual, que a cansada Helga encontrou sua alma gêmea!
Atualmente está feliz, vivendo há mais de dez anos com o amor da sua vida.
Ele não é um príncipe, o que é uma pena.
É um homem - e o bom é que não tem nada de virtual!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Helga e o poder!

Ontem passei na casa da Helga. Estava usando um avental com a faixa da presidência da república estampada de “revertréz”. Não aguentei e soltei uma gargalhada, ao que ela me respondeu, contendo o riso, tentando guardar uma seriedade inexistente.
- Dinorah, você ainda não viu nada! Vá até a cozinha.
- Helga! O que faz este enorme retrato, da presidente Dilma, na parede de sua cozinha?! – reparei que abaixo do retrato havia um cartaz:

Ministérios:

- Ministério do Forno e fogão – Ministro Adolfo
- Ministério do Tanque e Roupa Suja – Ministro Adolfo
- Ministério da Faxina – Ministro Adolfo
- Ministério da Fazenda, Praia e Festas – Presidente / Ministra Helga
- Dinorah, ou faço uma reforma social e política nesta casa agora, que a presidente do Brasil é uma mulher, ou vou passar o resto da vida achando que ainda estou vivendo no tempo de Império, mais precisamente na senzala.
- Helga, - sussurrei baixinho, segurando o riso – você parece meio maluca! Por quanto tempo vai levar esta loucurada de ter o Adolfo como “ministro”?
Ela deu uma de suas gargalhadas e, me chamando para um cantinho cochichou:
- Você sabe, este negócio de ministério é uma confusão, sabe-se lá quanto tempo dura um ministro. Assim, enquanto o Adolfo não se rebela, troque de partido e saia me malhando na imprensa ou, meta a mão na minha carteira, – você sabe, a corrupção anda solta em qualquer escalão. Então, até que surja o primeiro escândalo, eu vou aproveitando a mordomia.
- E depois? Se você perder a presidência ficará sem poder!
- Não se preocupe querida! – exclamou, com um jeito de quem não está nenhum pouco preocupada - Eu volto a assumir o meu posto de “rainha do lar” como fiz a vida inteira. – dá uma gargalhada muito marota e, se fazendo de sonsa, completa – Você sabe que tenho os meus poderes! E olhe que não são só três! – parou de rir, pensou um pouco e, fazendo uma expressão de quem descobriu a América, declarou: - Sabe de uma coisa Dinorah? Para garantir o poder, além da faixa de presidente, vou tratar de comprar uma imensa trança loira!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Helga e o coquetel.

- Dinorah, você sabe que sou muito querida. Acho que fui convidada para todas as festas de fim de ano. Outro dia, eu e o Adolfo fomos convidados para um coquetel – ela é sempre exibida e não faz a mínima questão de ser sutil, fala tudo isto como se fosse grande coisa, se dá uma importância tremenda – não foi o dos mais chiques que compareci, mas de qualquer forma foi bem interessante.

- Interessante por quê? Afinal, coquetéis não são muito diferentes uns dos outros.

- Ah! Mas este foi! – respira fundo, toma bastante fôlego e continua – você não imagina a quantidade de gordas com vestidos “tomara que caia”, pelo jeito, deve ser a última moda. Você sabe que não gosto de falar mal das pessoas, mas tinha tanta gorda com o tal modelo, “tomara que caia”, bem curtinho, lembrei muito daquelas mortadelas enormes. Pois é, elas pareciam àquelas mortadelas envoltas em uma tarja preta. Sim, por que estavam todas de preto. Não sei por que gorda tem mania de usar preto. Têm a ilusão de que emagrece, mas não é verdade. Gorda é gorda. Resta escolher entre ser uma gorda a cores ou uma gorda em preto e branco. – nestas horas é que imagino que ela não deve ter espelho em casa. Quem é ela para falar de gorda? – Dinorah, era peito saindo por cima, uns coxões saindo por baixo e, tome puxar vestido para cima e daí faltava embaixo, ajeitava embaixo sobrava peito em cima, deus do céu que desconforto!

- Helga, deixa as gordinhas vestirem o que gostam, deviam estar se achando lindas. – ela não poupa ninguém.

- Mas o pior ainda nem lhe contei. A decoração era toda com frutas, foi um tal de avançar nos canapés, que não eram muitos, diga-se de passagem. Mas me apavorei mesmo foi quando vi uma das gordas de tarja preta, colocando três bananas debaixo do braço, enquanto descascava e comia outra banana da decoração. Fazia pose, se achando o máximo. Enquanto isto, uma Eva – tarja preta também - fugida de algum paraíso, enfiava três maçãs na bolsa. Fiquei tão chocada com a cena que convidei o Adolfo para ir embora, você sabe que detesto gente sem classe. Saí do prédio, caminhei até a esquina e tirei os sapatos, não aguentava mais de dor nos joanetes. – a gorducha é um estrupício.

- Helga! Você critica quem come a decoração da festa, mas você tira os sapatos em plena rua!

- Ah! Dinorah! Se até a Cinderela já andou de pé no chão, por que eu não poderia? E você não vai querer comparar a Cinderela com aquelas macacas Chitas comedoras de decoração!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

As expressões de Helga.



- Huhu! Dinorah! - Adivinha se não era a Helga, na sorveteria da orla, tomando uma imensa banana split? – bem diz um amigo meu “atrás de um sorvete sempre tem um gordo” - senta aqui, toma um sorvete comigo que estou precisando conversar. .

- O que foi que aconteceu? – ela não parecia tão eufórica como normalmente.

- Estou um pouco chateada com o Adolfo. Ultimamente ele deu para me criticar. - imagine o que a gorducha andou aprontando para o molóide do Adolfo reclamar.

- O que foi que aconteceu Helga? O Adolfo nunca reclama de suas loucuras.

- Ontem, fomos até a lotérica fazer a mega sena. Falei para o rapazinho que faz os jogos: - Moço, por favor, faça estes dois jogos que estão marcados no cartão e, me dê uma no escuro. – Pronto! Foi o que bastou para o Adolfo esticar o beiço. Na saída perguntei por que ele estava beiçudo e ele me disse que não entendia como uma mulher tão cheia de classe como eu podia pedir para o rapaz da loteria “me dar uma no escuro” – falou que isto era uma vergonha, o que é que o rapaz iria pensar – que eu queria dar “uma” no escuro, que este tipo de jogo se chama surpresinha.

- Helga, você é tão avoada, não pensa antes de falar?

- Dinorah, não me venha com sermão. O Adolfo está implicando com tudo o que eu digo. No Natal fiz um pavê enorme, o Adolfo não é muito de doce, se eu ficasse com toda aquela travessa de sobremesa iria comer sozinha, o que poderia me trazer uns quilinhos a mais. Então, quando voltávamos da lotérica, encontrei o marido da vizinha e falei sobre o doce, que o Adolfo não come, eu estava dando para os vizinhos. Foi o que bastou. Quando olhei para o lado, lá estava o Adolfo atrás de um beição, e veio mais uma bronca - Helga! Como é que você pode dizer que: “estou dando para os vizinhos por que o Adolfo não come?” - Não bastasse me jogou na cara que, outro dia, na praia, eu falei para o vendedor de coco que eu gostava muito dos cocos dele – “Seus cocos maravilhosos! São os mais gostosos da praia!” - Sabe Dinorah, - ela falava com um jeito de quem estava muito magoada, enquanto enfiava uma colherada de sorvete na boca - a gente não pode ser gentil, não pode dar uma sobremesa para um vizinho, não pode elogiar ninguém. Tudo é pecado. Por isto hoje vou encher a cara de sorvete! Se engordar, bem feito pra o Adolfo! Ele merece mesmo uma mulher bem gorda e bem grossa!

Lambendo os dois lados da colher de sorvete, grita para o garçom:

- Moço! Quero mais uma! Sua banana é uma delícia!