Sente aí meu irmão É uma coisa rara de ver O ano é bom, muito bom Estou feliz podes crer
A história de Dinorah você encontra em: DINORACOMAGANOFIM: Muito Prazer! Dinoracomagánofim.



Dinorah

Dinorah

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

...é só carne, sal grosso e carvão...



Tenho certeza que todo mundo conhece uma mulher assim, espero, sinceramente, que não seja você mesma!
É na casa dela que, domingo sim, domingo também, a familiagem se reúne. Pais, tios, filhos, netos, genros, noras, irmãos, cunhados, sobrinhos, sogros, enfim, quem mais chegar!
Todas as datas festivas são comemoradas lá, independente do clima – no verão tem piscina, no inverno, lareira e fogão à lenha. É uma casa grande, onde cabem vários sofás para que os convidados possam se esparramar após a farra do churrasco de domingo.
Churrasco é bom, por que não dá trabalho - diz quem não é dona de casa – é só carne, sal grosso e carvão!
Eu concordo - quando a casa não é minha - churrasco não dá trabalho!
No sábado, a dona de casa corre no supermercado – não sem antes elevar uma prece à sua padroeira “Nossa Senhora Padroeira do Churrasco de Todos os Domingos” - compra o carvão, as carnes, o sal grosso. Bebidas – muita cerveja e refrigerante, sem esquecer que nem todos tomam refrigerante normal, tem sempre alguém de regime, daí precisa comprar uns anormais. Ah! Estava esquecendo, tem quem só tome suco de frutas feito na hora e, do avô, que toma cerveja sem álcool.
Caminha entre as prateleiras, falando sozinha:
- Churrasco sem salada de maionese não tem a mínima graça. Então, compra as batatas, ovos, salsa, cebolinha. Para os de dieta, compra alface, tomates, cenouras, no mínimo. Após comerem tanta carne, vem o desejo de um doce. Lembra da sobremesa. Pudim de leite! Mas, para toda aquela turba tem que ser dois... e os de dieta? Gelatina!
Quando está chegando no caixa pensa – e se ficarem a tarde toda? - tenho que oferecer uma merenda, um café. Volta para as prateleiras. Farinha de trigo, mais ovos, açúcar, chocolate, fermento, café, leite, manteiga.
Revisa mentalmente a lista. Ainda faltam o limão, cachaça e gelo...
Sábado, mercado lotado, carrinho cheio, toca para o caixa. Passa as compras, paga e vai para casa. Em casa, tira tudo do carro, separa o que é de geladeira, e o que não é.Acomoda tudo.
- Acho melhor já começar a fazer as sobremesas e bolo – considera.
Quando chegou em casa estava começando a novela das seis. Acabou o, invariavelmente horroroso, filme da “Sessão de Sábado”. Já passa da meia noite, sobremesas e bolos estão prontos. Exaurida, toma um banho e vai dormir.
Domingo, lá pelas 10 da manhã começam a chegar.
A criatura, que acordou às 7 horas da manhã, já lavou todas as alfaces, cozinhou as batatas, está com as saladas prontas. Na churrasqueira estão organizados, como se fossem instrumentos cirúrgicos, os espetos, facas, faquinhas e facões, sal grosso, tábua para cortar carne, carvão, álcool para acender o fogo, fósforo, um paninho para o churrasqueiro - o churrasqueiro sempre precisa de um paninho.
Cadeiras, pratos, talheres, copos, isopor com gelo, guardanapos, petiscos... enfim, agora vai poder sentar e assistir a parte crucial, quando o assador espeta a carne e gira os espetos sobre o fogo. Por um longo tempo, a fim de que todos possam ficar devidamente embriagados.
Enquanto isto, uma convidada verifica as unhas e apavorada exclama:
- Nossa! Como está feio o esmalte das minhas unhas! Você tem acetona?
Prontamente lá vai ela buscar a acetona.
- Aproveita e pega mais uns amendoins...
- Já que você está de pé, alcança o protetor solar, esqueci o meu...
- Vai até o quarto? Dá uma olhadinha se o Juninho está direitinho na cama...
Todos comem, bebem, cantam em homenagem ao churrasqueiro...
Com a barriga na pia, ela, lava pratos, talheres e copos, limpa espetos, serve a mesa do café – afinal já são 5 da tarde.
Os homens sesteiam, enquanto mulheres e crianças se esbaldam no sol e na piscina.
O marido, para prestigiar a mulher, exclama:
- Nossa! Que cheirinho maravilhoso! Vamos tomar café com bolo!
Uma outra, quando chega na cozinha repara, com um grande alívio, que toda a louça do almoço foi lavada e a mesa está pronta para o café, comenta:
- Querida! Por que você não me chamou para ajudar? Eu estava tomando banho de sol e nem vi que você estava na lida!
Tomam café, conversam, comentam como foi bom o dia. Já está anoitecendo.
- Foi bom passar o domingo contigo! Eu já vou, amanhã tenho que acordar cedo!
Este é o melhor dos convidados, pois tem aquela que sai de bico torcido porque não conseguiu comer duas fatias de pudim, alguém comeu quatro e não sobrou para ela.
Até que o último se despede:
- Tchau Querida! Domingo que vem a gente pode fazer outro churrasquinho destes, afinal, é só carne, sal grosso e carvão....

(continuação) VI Os sons


O relógio
Os sons daquela casa também permaneceram gravados em um pen drive a prova de qualquer vírus ou extravio.
Havia um relógio de pêndulo que batia as horas, de uma forma tão pomposa que sempre sentia um pouco de medo, principalmente se fosse à noite. Era um som grave, bonito, bem definido. Parecia um gigante afirmando - “Ouçam! Prestem atenção. Eu só ando para frente, não volto. Vivam este instante com intensidade, ele passará Não existe como armazená-lo em um vidro, tampouco conta de poupança do tempo”. Talvez, por isto o medo inconsciente, o respeito que ele impunha e ao mesmo tempo cobrava. Era muito solene para ser tratado com descaso.


O rádio
É incrível como tudo é enorme quando se tem cinco anos. Era um rádio de válvulas, conforme, onde se colocasse o dedo, dava choque. Era uma coisa muito perigosa. Só gente grande podia manuseá-lo. Tocava dois tipos de “coisas” – notícias para o avô e marchinhas de carnaval para as tias. Desde bem pequena sabia, que quando o rádio falasse – “em Brasília são dezenove horas” – crianças e mulheres tinham que ficar de boca fechada. Respirar bem baixinho. O avô ouvia todos os dias o homem que falava aquilo – que em Brasília eram dezenove horas – ela não gostava, não podia falar com ninguém - tomava o café e saía de rapidinho para outro lugar da casa onde pudesse conversar.
Gostava mesmo quando suas tias ligavam o rádio e, ele – o rádio – só cantava músicas de carnaval. Lembrou da primeira música que aprendeu a cantar. Para sua surpresa, não foi com as tias, foi com o avô. Ele colocava um chapéu de palha e acompanhava o rádio – “eu vou pra Maracangalha eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou...” – aquilo era tão engraçado. Aprendeu com o avô e acompanhava as tias. Era tão bom quando elas cantavam as musiquinhas de carnaval. Riam felizes, conversavam muito, ela só conseguia decifrar as palavras: namorado, baile, saia godê ponche. Achava aquela saia a roupa mais bonita do mundo, era enorme, rodada. Mais bonita que a saia godê ponche só o vestido balão que a tia mais moça usou quando fez quinze anos.
Brincava, recortando bonequinhas de papel com a avó, enquanto as tias, cantavam e dançavam alegres, cheias de trejeitos, dizendo que tinham que ensaiar para o carnaval, dançando com os dois fura bolos, para cima...
Agora, enquanto observa o crescimento da ferrugem na pele de suas mãos, lembra daqueles momentos mágicos em sua vida. É tomada por uma deliciosa sensação de paz e felicidade, um arrepio nos pelos dos braços e cócegas no estômago.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

(continuação) - VII - O segredo



- Vó, o que é que tem dentro desta lata branca?
Guardada em um armário do quarto havia uma lata grande, redonda. Sempre que se deparava com lata, perguntava o que havia dentro. A avó, por sua vez, desviava a atenção para outra coisa. Levou muito tempo, até que certa vez, a avó lhe mostrasse o conteúdo. Ficou numa agitação ao ver a avó colocar a lata sobre a cama. Tinha só seis anos e estava descobrindo um tesouro – para ela, tudo o que era guardado, sem que soubesse o conteúdo, era um tesouro. A avó abriu a lata e retirou um embrulho de papel de seda contendo um véu e uma grinalda, amareladas pelo tempo. Era o véu que havia usado em seu casamento.Havia também um par de polainas brancas, de pelica, com muitos botõezinhos, que o avô usara na mesma data. Que emoção dividir aquele tesouro, aquele segredo, com a avó. Aquele dia jamais seria esquecido. Como de fato, nunca o foi.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Duane Bryers




Quero prestar uma homenagem ao autor destas belezinhas que são as ilustração que coloco aqui. Aqueles desenhos de uma pin up gordinha, linda!
Esta gordinha que ilustra o meu blog é uma criação do artista americano Duane Bryers, nascido em 1911, no Michigan, ganhava a vida como ilustrador comercial.
Em 1958, criou a personagem Hilda - uma pin-up acima do peso, de formas arredondadas, cabelos ruivos, e que está sempre realizando uma tarefa doméstica - com isto teve seu nome e trabalho reconhecidos.
Em 2002, aos 91 anos, concedeu uma entrevista que consta do site - http://www.toilgirls.com/hilda/gallery.html - de onde retirei algumas curiosidades.
Durante 36 anos, o autor, Duane Bryers pintou cerca de 250 Hildas, e a pintura era feita com guache.
Conta, o autor, que não costumava usar modelos, mas declara que:

É difícil dizer. Quando era mais jovem eu costumava usar a minha filha de celebridade para modelo de Hilda, embora ela era pequena e magra. Eu a usei como um modelo. Um braço é um braço e uma perna é uma perna e tudo que você precisa fazer é adicionar um pouco de gordura.
Também, declara que tem duas Hildas que ele gosta muito. Uma é onde ela está varrendo o lixo para debaixo do tapete, e outra é a Hilda de chapéu.

Bem, citei o autor da obra que tanto admiro – já não sou mais uma pirata- estelionatária – e acredito ter prestado uma justa homenagem a este fantástico artista, Duane Bryers!

(continuação) VIII - Conclusão


Avós foram feitos para a gente lembrar e sentir saudades, quando o tempo começar a passar mais depressa. Para sabermos que, em algum lugar da nossa lembrança, existe um estoque de momentos de aconchego - morno nos dias de inverno e refrescante nos de verão. Que exista, nem que seja só na memória, um colo macio, um cheirinho de fumo em corda, um sabor de bife na chapa. Alguém que nos diga que somos bonitos, não cobre quilos a mais ou a menos. Que nos agrade nos acertos e, nos erros, passe a mão em nossa cabeça e nos console. Enfim, alguém que não nos julgue, não critique. Que não tenha como objetivo nos tornar o melhor, o mais inteligente, o mais bonito, o mais premiado, o mais... Simplesmente nos aceite, nos ame, bem assim, tortos e desajeitados, do jeito que somos. Assim é amor de vó – incondicional!
Afinal, amar o belo, o correto, o perfeito, é fácil, qualquer um ama
Talvez, por terem dado aos netos só o que tinham de bom, os avós tornam-se pessoas inesquecíveis de nossas vidas.
Não criticavam – aliás, criticavam nosso pai ou mãe, saindo em defesa dos netos e nós, os netos, deleitávamo-nos com alguém que, com toda a autoridade, pudesse reprimir o nosso repressor.
Por tudo, isto os avós vivem para sempre em nossas lembranças e, por esta razão, as biografias deveriam ser escritas somente por netos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Fada.



A história de hoje é verídica. Tinha seis anos de idade e morava lá pelas bandas do Botucaraí.
Era final de ano, a professora informou que as meninas da classe apresentariam um “bailado”.
Ficou numa felicidade! Nunca havia feito teatro

com platéia de verdade. Gostava de brincar de teatrinho com as amigas. Sempre haviam princesas, príncipes, fadas e bruxas. Nunca aprendeu ballet, fazia umas imitações que achava simplesmente espetacular.
Era realmente fantástica! - segundo conceito próprio.
- Vamos apresentar um bailado. As meninas serão bonecas. Ficarão em pé dentro de caixas e uma será a Fada, que dançará e tocará as caixas das bonecas com uma varinha de condão. As bonecas ganharão vida, se transformarão em meninas. Elas sairão de dentro das caixas e darão uma voltinha, com os braços erguidos, retornando para dentro das caixas.
A professora falava e demonstrava, para as meninas, como seria o balet.
Prestou atenção para guardar toda a coreografia que a Fada deveria fazer. Bastou a professora fazer uma vez, já sabia tudo!
- Agora fiquem todas em pé, uma ao lado da outra, vou escolher quem será a fada.
Perfilaram-se, a professora caminhava entre elas. Solange era uma menina loirinha, de cabelos encaracolados. Carmem, magrela de cabelinho bem curtinho. Jacira, tinha olhos grandes, cabelos negros, escorridos. Marta, Ah! Marta! Era a mais alta de todas, esbelta, cabelos castanhos, olhos azuis, longos cachos caiam por suas costas.
- Marta, você será a fada! – sentenciou a professora.
Sem nenhuma humildade, cerimônia ou culpa. Com muita convicção interrompeu:
- Professora, a senhora se enganou! Quem sabe dançar balet sou eu, olhe só – e fez umas piruetas demonstrando que aprendera a coreografia só de olhar uma vez - também tenho uma roupa de fada – completou. Lembrou do vestido que a irmã mais nova usara como dama de honra em um casamento, um vestido branco, todo de babadinhos.
- Não! Marta será a Fada, vocês serão as bonecas.
- Mas eu não quero ser boneca. Boneca não faz nada, só sai um pouquinho da caixa, dá uma voltinha e entra na caixa novamente - resmungou
- Já está escolhido. Vamos ensaiar.
Volta e meia falava para a professora que ela é que deveria ser a Fada. Não sentia vergonha por demonstrar tão obviamente o seu desejo. Queria ser a Fada e para isto ensaiava em casa tardes inteiras e não havia por que me constranger. Não havia questionamento com relação a aparência, desempenho ou qualquer coisa parecida. A única coisa que sabia é que ela poderia, e queria, ser a Fada.
Enfim, chegou o dia em que aconteceria a apresentação. Ela estava um pouco sem graça. Não seria Fada e ser boneca era uma coisa tão boba, então, tanto fazia ter apresentação ou não.
Foi quando Pierre, um colega de escola, chegou todo esbaforido.
- A professora mandou avisar que Marta está com catapora e não poderá dançar hoje à noite. Você será a fada!
Aquele foi o dia mais feliz da sua vida!
Correu para até a mãe pedindo-lhe para providenciar no vestido de sua irmã pois ela seria a fada!
- Mas, minha filha, como é que você vai usar o vestido de sua irmã mais nova? Ele é muito pequeno para você!
- Não tem problema mãe, a gente põe um remendo - falou decidida.
Bom, a partir daí foi um tal de tira e põe o vestido, emenda e costura. Pouco importava a trabalheira da mãe. Ela estava radiante!
Chegou a noite e apresentou-se em um palco de verdade. Dançou, e com a varinha de condão desencantou todas meninas-bonecas.


Foi a fada baixinha, gordinha, de óculos, mais feliz que alguém possa imaginar!


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Explique-se!


- Filha, como foi o teste na escola?
- A professora disse que a maioria foi bem.
- E você como foi?
- Não sei, só sei que a maioria foi bem!
A conversa continuou, sobre os mais variados temas. A menina voltou ao assunto das provas. A mãe já começava a desconfiar de que a filha havia ido muito mal, pois continuava frisando, inconformada, que a maioria foi bem. Sempre deixando um espaço para encaixar um – eu é que fui mal.

- Filha, você achou difícil o teste? Respondeu todas as questões?
- Respondi todas, e não sei se aquilo era difícil ou fácil, a única coisa que sei é que a maioria foi bem – respondeu, já com uma pitada de indignação, como quem diz – não sei! Vá se catar!
A criança continuava a afirmar que não sabia como tinha ido na prova, só sabia que dissera a professora - a maioria foi bem!
A mãe deu a conversa por encerrada, e antes que pudesse mudar de assunto menina respirou fundo e corajosamente declarou:
- Desde o começo do ano que a professora diz - que ela foi bem... que ela foi mal, mas até hoje eu não conheço e nunca ouvi a professora dizer o nome dela na chamada.
- Nome de quem?
- Da Maioria, ora!